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O Problema de As Crônicas do Gelo e do Fogo: Jon Snow



As Crônicas de Gelo e do Fogo de George R. R. Martin têm um problema. Jon Snow é a parte mais visível deste problema e, talvez em nome da força literária da série, melhor seria se ele permanecesse morto na sequência de livros ainda inconclusa (fala-se do processo de escrita e cobra-se Martin sobre Ventos do Inverno pelo menos desde 2013), diferentemente da série para televisão, Game Of Thrones, que neste 14 de abril de 2019 estreia sua última temporada. Na narrativa televisiva liderada por David Benioff e Weiz, a produção ultrapassou os acontecimentos literários há algum tempo e com algumas mudanças nas linhas de eventos. Contudo, uma observação atenta do primeiro livro da série, A Guerra dos Tronos, indica destinos semelhantes a Jon Snow, algo capaz de trazer impactos negativos às virtudes muitas vezes celebradas à narrativa de Martin. Porém, antes de melhor falar disso, creio, seja interessante compartilhar minha relação com As Crônicas do Gelo e do Fogo.

Vim a conhecer As Crônicas do Gelo e do Fogo pelo processo de divulgação fortemente centrado na internet e dentre leitores de fantasia, que no Brasil é generalizado como literatura fantástica. Isso muito ligado às minhas pesquisas e interesses surgidos desde que criara um blog literário em 2009. A série de livros seria então publicada no país, em parte pelo sucesso da série da HBO que começava a conduzir a produção ao status de fenômeno, e a pressão feita por leitores, autores e fãs de literatura de fantasia que desejavam ler o livro aqui. A adaptação de fins de de década de 2000, claro, catapultou os livros publicados originalmente nos anos 90 e arregimentou por todo o mundo centena de milhares de leitores, em grande parte, podendo ser considerados literalmente fãs. No meu caso, em nada e com nada mantive a relação entusiasmada e acrítica de um fã, entretanto, com esta série de livros muitos foram os entusiasmos.

Como muitos leitores curiosos com o falatório que se criava sobre os livros e a respectiva adaptação, adquiri o primeiro combo em um box com os três primeiros livros por volta de 2012. Começada a leitura, a atração foi tamanha que carregara junto dois últimos exemplares durante uma viagem de trabalho, e acreditem, aqueles bons quilos de papéis e histórias fantásticas, só mesmo o entusiasmo para levá-los juntos às costas entre aeroportos, pousadas e longas caminhadas. E como muitos dos leitores da série, emendei as duas sequências, O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões. Eu fora fisgado totalmente pela aventura de George R. R. Martin e, como em geral de seus leitores, propagava a quem podia as virtudes deste épico contemporâneo, provavelmente a obra de fantasia mais complexa publicada no gênero. Assim, quando tive a oportunidade de cursar graduação na área de letras, não perdia a oportunidade de levar os livros aos céticos professores de literatura na universidade. Estes, quando não recebiam as leituras de alunos com ceticismo, as recebiam com desdém. Nunca vi tais atitudes como produtivas à literatura, mas reticências dos acadêmicos à Guerra dos Tronos à parte, do leitor que eu era sem o suporte teórico ao leitor com formação teórica após minha graduação, muitas das análises positivas quanto ao trabalho de Martin permaneceram. Penso que alguns desses aspectos positivos devem ser compartilhados neste texto.

Aliás, é bastante curioso observar os narizes virados de parte da leitura crítica e acadêmica às Crônicas do Gelo e do Fogo. Muitas vezes nesse nicho de leitores, que por portarem certo grau de especialização, acabam definindo o cânone, dá a sensação que o sucesso comercial de um livro é indicativo de ausência de virtudes literárias numa obra. Esse é um pensamento bastante equivocado, penso eu. Estabelecer este tipo de relação – ou ranço – é o mesmo que dizer que grandes clássicos ou autores laureados não podem tornarem-se bestsellers, termo visto pejorativamente em muitos círculos literários, os acadêmicos entre eles. A despeito de tal visão, não raro – e que bom – Garcia Marques, George Orwell, Vargas Llosa, Veríssimo entre outros grandes nomes frequentam listas de mais vendidos e são literariamente e comercialmente bem-sucedidos. Além disso, este pensamento, por outro lado, implicaria que qualquer sujeito publicado e uma decepção em vendas bem poderia autoproclamar-se um clássico contemporâneo mal compreendido. Mas este, embora condizente e relacionada com a presente discussão, é assunto para doutras oportunidades. Toco-o tangencialmente porque muitos dos narizes virados a este trabalho de Martin está ligado a popularidade dos livros da série. Contudo, pensar n’As Crônicas com preconceitos mascara um conjunto de fatores que lhes constituem virtudes.

Encontraremos poucos exemplares na literatura global capazes de explorar tantos personagens quanto As Crônicas do Gelo e do Fogo. Walter Benjamin dizia que “o trabalho em uma boa prosa tem três graus: um musical em que ela é composta, um arquitetônico, em que ela é construída, e, enfim, um têxtil, em que ela é tecida”. Tendo a concordar com ele, justamente por isso salta-me aos olhos o grande desafio de George R. R. Martin, pois que ele não somente arquiteta uma prosa épica, mas também todo um mundo alternativo, ainda que baseado e referendado pelo percurso do mundo humano. Nesse sentido se compreendermos a solidez arquitetônica da narrativa uma virtude, penso não haver muita discordância de que a arquitetura de As Crônicas do Gelo e do Fogo é bastante sólida. Digno dos épicos, aliás gênero que nos apresenta o conceito de trabalho hérculeo, hérculeo mostra-se o tecer de toda a prosa d’As Crônicas. Pense na destreza do autor com as agulhas da imaginação, traçando pontos, tecendo sua malha a unificar uma boa centena de personagens. Mas personagens, bem sabemos, não são apenas personagens, são histórias e estórias que se encontram, que se bifurcam, que se reencontram, e continuam a fazer isso... Tosltoy tece um fragmento de mundo em suas narrativas vigorosas sobre a Rússia, Martin por sua vez tece um mundo inteiro, e consegue ainda a suspender seu leitor no convencimento de sua “realidade” ficcional. Desde que não nos atiremos a preconceitos insensatos é preciso admitir qualidade numa narrativa com tantos personagens, tantas tramas que se entrelaçam, tantas vidas que surgem sem perderem-se pelo meio do caminho. Se escrever tantos personagens com qualidade, certamente escrever uma grande quantidade de protagonistas só demonstra o caráter épico não da saga, mas de seu processo de criação. No nível da arquitetura, os romances que compõe a série são compostos por capítulos que, por meio de uma narrativa em terceira pessoa que por vezes é quase simbiótica ao protagonista que acompanha, potencializam uma boa dezena de protagonismos, sejam heróis ou vilões, ambos diluídos pelas complexidades e pelo caráter “cinzento” de suas identidades que escapam da dualidade dominante na fantasia da velha luta entre o bem e o mal. Martin sabe e sua obra demonstra isso, que a natureza humana não divide-se em dois extremos, ou um ou outro, oito ou oitenta. Assim, independentemente de que posição ocupem na trama, todos os seus protagonismos são constituídos em gradações que ora pendem para um, ora pendem para o outro. Isso, claro, embora todo o caráter épico da série, trata-se de um épico diferente, não mais com o heroísmo acrítico da origem do gênero. Mesmo num épico, o heroísmo em As Crônicas do Gelo e do Fogo não desconhece “o fracasso” do herói, e mesmo aqueles personagens que nos romances poderiam ser vistos deste modo, agirão da forma mais humana possível, ou seja, com enganos, fracassos e mesmo através de ações e atitudes condenáveis que só cabem ao “herói” de hoje, nunca possível nos heróis épicos do passado dotados de valores modelares e irreais. Do mesmo modo acontece com o antagonismo, a vilania. Alguns que bem poderiam encaixar-se neste aspecto, ao longo da saga passarão por jornadas de desconstrução existencial. Caso exemplar de Jaime Lannister, ao final do quinto livro, já bem desconstruído do potencial vilão de início da série. Ao passo que suas experiências avançam, o leitor encontrará nele atitudes de uma humanidade na acepção positiva da palavra, um contraste com o Jaime que no começo da saga empurra o jovem Bram da torre. “As coisas que não faço por amor”. O professor da provavelmente mais prestigiada oficina de escrita do Brasil, Luiz Antônio de Assis Brasil, destaca a importância do personagem para a ficção. Confere-lhe a centralidade que poderá determinar a longevidade ou não de uma obra. Para Assis Brasil, em síntese, personagens bem construídos tendem a resultar em boa ficção. Em literatura. Nessa perspectiva o que não nos faltam na saga de George R. R, Martin são bons personagens. Mas talvez como nenhuma outra obra tantos excelentes personagens. Para ficarmos no âmbito da fantasia, por exemplo, é possível que não recordemos todos os nomes dos integrantes da sociedade a que pertence Bilbo Bolseiro em O Hobbit, mas não duvido que mesmo aqueles leitores que não estejam no patamar de fã serão capazes de citar pelo menos uns vinte nomes de As Crônicas do Gelo e do Fogo assim num supetão. Não tenho dúvidas que uma boa dúzia de personagens de A Guerra dos Tronos alcançaram aquilo que personagens como Sherlock Holmes, Capitu, Rodrigo Cambará alcançaram, a impressão de terem sido reais. Não podemos negar a força dos personagens de Martin, constituídos muitos deles de profundidade e complexidade esperada e exigida das grandes obras de literatura.

Falando de personagens, ainda que numa fantasia modelada pelo imaginário medieval acrescido de “novidades” próprias, outra virtude comumente associada à série trata-se da questão de gênero. Em geral, desde Tolkien, a fantasia não é muito de destacar o feminino. Em grande parte das obras de fantasia às mulheres não se possibilitam protagonismos, talvez um ensaio ou outro, como em As Crônicas de Nárnia. As Crônicas do Gelo e do Fogo segue outro caminho. As mulheres não raro dão as cartas no jogo dos tronos, e cada qual com sua fórmula específica. Há gigante abismo de valores, crenças e atitudes a distanciar Daenerys Targaryen e Cersei Lannister, entretanto não podemos negar que ambas ocupam na série a posição que grande parte dos autores não é capaz de reconhecer ao feminino. O mesmo, se os livros seguirem certa linha da adaptação, pode-se dizer das irmãs Sansa e Arya Stark, tão diferentes entre si, mas cada qual com sua força e seu protagonismo. Como não falar da dualidade da Donzela de Tarth, do aguerrimento de Catelyn. Por isso, não raro, personagens femininas estão entre as prediletas de leitores e espectadores. Assim como na vida, no ambiente desta ficção eles superam mais, pois que habitam um mundo hostil às mulheres, ao feminino. E elas superam isso com todas as virtudes e os defeitos que possam estar inseridos na palavra humanidade ou natureza humana. São as personagens femininas de As Crônicas do Gelo e do Fogo outra virtude a ser estudada e analisada, em todos os seus aspectos, inclusive os contraditórios. Isso sem falar que um dos melhores personagens da saga é um anão, não raro comparado a uma monstruosidade no interior do épico. Dizer isto reforça, penso, a ideia de que as Crônicas possuem força literária.



Ainda assim, cá estou a dizer que elas possuem um problema. Sim. Possuem. Talvez nem todos concordem comigo. A discordância é natural. Já falei aqui o quanto considero forte a arquitetura e a tessitura desta saga épica. Coincidentemente arquitetura tema alguma relação com o tipo de escritor que Martin observa o processo da escrita:

Sou um escritor lento, assíduo e meticuloso. Alguns escritores são arquitetos, que planejam o seu livro inteiro antes de escreverem a primeira palavra. Outros são jardineiros, que plantam a semente, a regam (com sangue, suor e lágrimas) e a veem crescer. Sou muito mais um jardineiro do que um arquiteto. Sigo as minhas personagens até onde elas me levam, e, às vezes, até um final mortal.


Creio que aí esteja o problema do leitor. Se convencido da concepção que Martin faz de si mesmo, e passar à leitura sem aquela pitada cética indispensável ao crítico, teremos certeza de que é assim mesmo. A trajetória de seus personagens de fato parecem convencer-nos de que são frutos de alguma existência autônoma, livre as arquiteturas e ingerências do autor. Mas nisso há Jon Snow e uma série de televisão a revelar que talvez nem tão jardineiro, e um pouco mais de arquiteto. Claro, não vou negar que o autor convencer-nos de que seus personagens acabam sendo vitimados por consequências naturais de suas existências autônomas enquanto habitantes daquele mundo ficcional é atestado de competência da narrativa. Não podemos negar que o destino em suspenso de Jon Snow, pelo menos nos livros, no quinto volume acaba tendo relação à sua conduta após iniciada sua jornada literária. Aliás, quase todos os personagens, pelo menos os mais relevantes, podem ser estudados nessa perspectiva de ação e consequência. Mas fiquemos com a questão de Jon Snow. Ela é o cerne do que considero “o problema”.

Logicamente temos de levar em consideração o fato de que, creio não haver outro, é o primeiro caso de adaptação que há alguns anos já ultrapassou os eventos do livro, empacado em seu quinto volume. Quem conhece as duas criações bem sabe que hão pequenas mudanças e diferenças, até porque não custa lembrar que uma adaptação não é uma cópia, mas algo novo. O que importa dizer que comparações não fazem um sentido. Um filme de um livro adaptado deve ser analisado como um filme, assim como o livro deve ser analisado enquanto narrativa literária. Claro que na prática nem sempre funciona deste modo. Mas retomado “a questão Snow”, junto de Daenerys, trata-se do mais popular personagem de A Guerra dos Tronos. Por longas temporadas discutiram-se diferentes teorias acerca deste personagem. No fim apenas a confirmação da suspeição da massa, ou seja, o jovem é na verdade um herdeiro Targaryen, filho de Rhaegar e Lyanna Stark. Tal revelação traz alguns efeitos e defeitos à série. Primeiro que acaba resolvendo a questão de Eddard, o mais próximo personagem da saga com os valores de cavalaria. Homem de comportamento duro e retidão por vezes ingênua, seu único desabono biográfico era o de ter um filho bastardo. A revelação da identidade de Jon redime a ética de Ned Stark, mas talvez o enfraqueça enquanto personagem. Numa saga marcada pelo caráter cinzento e cheio de nuances de seus personagens, Ned seja talvez o “mais literário”, o mais cavaleiro dentre todos. Essa, todavia, é uma questão menor, porque a identidade de Jon Snow acaba de certo modo esvanecendo algumas das virtudes do livro. Mais do que isso, se quando Ventos do Inverno for finalmente publicado e diferentemente da série para televisão, Jon Snow não jazer, muitas destas virtudes perderão certo brilho. Não todo, deixo claro, porém. Na dúvida, uma nova lida no primeiro volume de A Guerra dos Tronos trazem pistas mais do que fortes, verdadeiras evidências de que nos livros o destino e o passado de Jon serão os mesmos. No começo de toda esta jornada estão afirmações de Ned que “Jon é de seu sangue”, o que não é mentira em qualquer perspectiva. Mas ainda mais revelador, em algumas de suas lembranças lá estão os pedidos de juramento feito por Lyanna. Então é bem provável que a trajetória de Snow seja semelhante, na literatura e na televisão. Mas por que diabos seria isso um problema?

A este leitor, por algumas razões. Primeira que tira a força da virtual autonomia dos personagens, não raro tida como atributo da narrativa. Isso aliás, mostra que pelo menos no caso de Snow, Martin está mais para arquiteto do que jardineiro, como pensa, ou que pelo menos tenta nos convencer. Mostra que não é Snow como afirma o autor que o está levando, pelo contrário, o personagem está determinado desde o princípio. Contudo isso não é um problema sério, ou penso que não. Apenas desnuda algumas concepções e afirmações equivocadas, nada mais. A mim, diante uma narrativa com tantos aspectos interessantes, a decepção é que, se nos livros o destino e a biografia de Jon Snow não forem diferentes, Martin não terá conseguido vencer o determinismo social vigilante e vigente nas relações sociais. Como tantos outros na literatura de fantasia ou não, Snow não escapa do messianismo dos escolhidos, aqui reforçado pela condição genética e social. Se fosse de fato um bastardo, talvez pudéssemos vê-lo com tintas revolucionárias. Não é o caso dele, creio tampouco de Daenerys. Sendo deste modo ratificam o poder da estrutura hierárquica dos poderes, pois que Jon Snow não apenas é o escolhido, mas possui linhagem nobre para tanto. Vejamos que isso desnuda muitas interpretações errôneas que por vezes observam a saga de Martin como revolucionária. Essa é uma constatação, que, claro, não retira de todo a força literária da narrativa – talvez exerça o contrário – mas revela por sua vez que talvez hajam muitas interpretações errôneas quanto a mensagem ideológica presente, afinal, no romance. A trajetória de Jon Snow mostra que a série acaba não rompendo com velhas estruturas, pelo contrário, solidifica ideias um tanto perniciosas. Por isso, a este leitor, pelo menos, tanto melhor seria se nos livros Jon Snow permanecesse um bastardo morto. Só assim, penso que talvez possamos encontrar algo minimamente revolucionário na obra.

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