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Red Book, Blue Book: Pode não ser fácil, mas ler livros é o caminho



O Brasil que não lê é um retrato límpido da sociedade que escolhe e opta pela tosquice. Os reflexos na política é um dos resultados deste antigo, agora piorado drama nacional. E dizer que há pouco tempo chegamos ter renovada certa esperança com investimentos no mercado editorial, novos nomes lançados, gêneros popularizados como a literatura de fantasia em alta. Como o sonho em geral de uma nação firme na direção progressista do futuro, o universo dos livros, que nunca foi fácil, neste tempo presente vive dias de agonia. Livrarias quebradas, editoras em crise, autores vivendo de migalhas, e até gráficas, falidas. Ou seja, talvez cenário comum para uma nação, que não é de hoje, tem optado ir à contramão de qualquer evolução, tratando com desdém ou raiva os livros. Isso é bastante claro quando parcela hegemônica da sociedade sequer dispõe-se a ler algum livro.

Se a falta de leitores escancara um drama social antigo do Brasil, dentre o público leitor nem sempre é bom ter esperança, pois que boa parcela da população que lê, o faz talvez da maneira menos indicada. Tal situação fica mais clara quando nos dedicamos a analisar as listas de obras mais vendidas, de Bíblias, e textificação da oralidade youtuber, de autoajuda a obras de não-ficção, nem todas de boa qualidade. O brasileiro há muito, não tem coragem da leitura de obras significativas.

Começa pela escola quando raramente é incentivada a leitura. Verdade que nos tempos mais recentes, tem-se tentado mais. Quando se consegue algo, fica-se ainda longe de aproximar os jovens de uma leitura relevante. No Brasil o difícil fajutamente é ignorado. Fajutamente porque a alienação é máscara frágil de proteção. Ainda assim a maioria atira-se a essa falsa proteção. No Brasil ninguém gosta do que é difícil. Do que é incômodo. Aliás, isso quando as coisas não pioram e se passa a circular a ideia de que queimar esse ou aquele livro/escritor é uma ideia interessante. No Brasil a raiva contra os livros é um tanto cíclica.

Os bons leitores que sobram desse processo permanente de desconstituição da inteligência, da intelectualidade, do saber, precisam então ser mais do que leitores. São resistentes. Sim, considero o hábito de abrir uma página de leitura complexa, provocadora, instigante, um ato não só revolucionário, mas também de resistência. Resistência do leitor. Dos autores. Dos editores... Uma tarefa difícil, diga-se, num país em que salvo as propagandas dos bons leitores e do setor, a imagem da leitura não raro é dado como algo pejorativo. Entre homens, então, nem se fala, pois o que não faltam são pseudomachões para rir do homem que lê. Mas isso não é exclusividade. Num país atrasado como o nosso é comum ouvir alguém dizer "que é perda de tempo ficar lendo livros". Só entre políticos há uma boa parcela que já deu tal declaração pública. Isso quando não invertem-se os valores dizendo que alguém "ficou louco por ler e estudar demais". O brasileiro parece temer a leitura e os livros.

Penso que se reuníssemos esse brasileiro e brasileira medianos numa única identidade, seria aquele indivíduo frente a Morpheus, sim aquele de Matrix. Essa identidade está ali, perante a escolha crucial. A pílula vermelha aqui faria o trabalho dos bons livros, da boa literatura. É um caminho sem volta para uma existência consciente, liberta, cética e racional. A verdade e as verdades por trás do mundo. Nessa hora o não-leitor, é como um Chyper Descoberto. Alguém incapaz de viver com a verdade, com os dramas. Mas diferentemente do personagem que no filme trairá Neo, o Brasileiro Não-Leitor perderá para o medo antes mesmo do vislumbre da verdade. Diante Morpheus ele sequer titubeia, com certo orgulho opta pela pílula azul. Quer viver eternamente no mundo dos sonhos da ilusão. Essa identidade que lembremos é muitos, é massa, representa a pobreza intelectual de uma nação que ainda teme sair das profundezas da Caverna de Platão. As sombras ainda a intimida, não tanto como talvez a luz plena. Por isso sofrem os livros e quem dele busca viver ou trabalhar. 

Portanto, em mais um Dia Mundial dos Livros, não temos muitos motivos para comemorar. Para resistir sim. Literatura é uma arte de resistência. Uma arte complexa, contraditória, e na medida do possível, livre. Haverá de resistir a nossos dramas, a nossas tragédias sociais que o são também tragédias culturais. Antonio Candido falava com propriedade e com assertividade de nosso direito à literatura. Temos de exigí-lo. 

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