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Resenha: Escândalo, de Shusako Endo



Escândalo em seu ritmo de anticlímax e angústia move-se caudalosamente pelos temas caros e reverberantes na literatura de Endo, discutindo especialmente sua natureza enquanto obra cristã, os percalços do envelhecimento e acima de tudo os recônditos e às vezes profundos recantos da existência humana em todas as suas contradições. 
   O romance é ambientado em uma Tóquio decadente dos anos oitenta [década de estreia do romance]. Shusako Endo, reconhecido por sua literatura e a ligação desta com seu catolicismo, apresenta-nos a narrativa acerca de um sexagenário escritor, Suguro, envolto com o "fim da vida", com sua própria literatura e com sua religião em contraste com as profundezas da alma e dos desejos humanos, o que em conjunto, agrega boa dose de melancolia e desalento com tudo o que decai, a sociedade, a cidade, e inevitavelmente, o próprio corpo, cuja decadência interage com o cenário. Indispensável nas narrativas literárias, o evento que desencadeia as reflexões de Suguro é o surgimento de boatos que tem sido visto nos ambientes mais podres de Tóquio, o que seria de extremo risco não apenas para suas recentes premiações, mas para toda a sua carreira, erigida pela imagem de um autor que reflete sua escolha pelo cristianismo, um conservador de família estável e cujo casamento já não é mais do que mera imagem de pessoas que se acostumaram a conviver juntas. Entre a desconfiança de ter um doppelgänger a se passar por si e entre questionamentos sobre seus caminhos, Suguro então mergulha num enredo carregado de sombras, frustrações e acima de tudo, dúvidas. Aqui temos portanto um dos elementos que bem pode nos conduzir pelas portas da interpretação: o elemento autobiográfico presentes na obra. Tal como Endo, Suguro é um escritor já idoso reconhecido por uma literatura cristã e católica. Tal como Endo, que escreve esse Escândalo, Suguro projeta para seu futuro uma narrativa que leve tal título. Vale dizer que a questão religiosa, especialmente o questionamento de sua validade e também de que forma ela constrói a literatura de Suguro é uma das centralidades do romance, como se Endo questionasse a si mesmo a partir da trama sobre seu ficcional autor. No romance, além das tintas autobiográficas, isso faz com que tenhamos um bom bocado de metaliteratura, o que levanta questões interessantes, por exemplo, para os estudos literários. Mais do que tudo, no romance veremos ainda a discussão do que significa ser católico numa cultura diferente [e milenar], especialmente quais cobranças são feitas tanto ao ficcional Suguro e em decorrência disso ao próprio Shusako Endo. 
    Nesse aspecto é bastante curioso observarmos a voz de Madame Naruze acerca da literatura de Suguro, uma voz altamente crítica e que relaciona /condiciona a opção religiosa do autor a certo medo presente e recorrente em suas obras, como se ele não se permitisse ir ao extremo, ao final de todas perversões. Curiosamente se este fosse um medo de Endo a repeito de sua própria produção, parece que assim como promete Suguro a sua última obra, em Escândalo Endo parece não temer descer aos degraus mais profundos dos desejos e das abjeções. Adentramos então a outra questão fundamental da narrativa, o conflito entre a fé e a postura e os desejos inculcados em nossas entranhas mais profundas. No caso do romance, praticamente todos os personagens com certa centralidade ou protagonismo parecem reprimir instintos às vezes vistos como primitivos. E aqui pesa-se certamente a concepção católica do autor, já que as perversões são narradas de modo a culpabilizar os desejos, e para isso o autor recorre aos extremos, a uma busca desenfreada por algo mais que nunca satisfaz e que ele próprio, Suguro, sucumbe. 
    Não menos curioso que nessa cidade habitada por pessoas cheias de desejos secretos - e peculiares - parece que há certa preservação da figura maternal da boa esposa, obediente e distante do "verdadeiro mundo" a que todos parecem pertencer, caso de como o autor desenvolve/trabalha a esposa de Suguro, a quem o autor em seus dilemas pretende proteger de um mundo paralelo e sujo. Tais exemplos são pontos de partida potentes para qualquer leitura e interpretação da narrativa, entretanto, somado a eles, temos ainda a angústia e a melancolia de um corpo que decai, como dito anteriormente. No caso de Suguro, sempre às voltas com seus níveis de TGO e TGP. Não são raros os momentos em que na narrativa os lamentos do idoso autor se concentrarão nas maledicências de um corpo que já não comporta mais o bom existir. Longe do ufanismo e do eufemismo da "melhor idade" o envelhecer é trágico, dolorido, angustiante e não bastassem as dores ou a ciência de um tempo que se foi, tudo se torna ainda mais dramático ao passo em que esta idade resulta num macabro cômputo de quem será o próximo da lista entre amigos a morrer. Além disso, tal sociedade cheia de ruídos e decadências carrega ainda os traumas de suas guerras e conflitos de modo que é também uma narrativa do pós-guerra. A guerra, aliás, surge como catapulta das animalidades e no caso de Suguro talvez como denúncia da maior digressão da esposa, relevar e a seu modo "utilizar" os monstros pessoais de Suguro criados durante sua luta na China. Vejamos então que a atmosfera cinzenta do romance e seu caráter asfixiante não estão ali à toa. Isso tudo nos leva ao percorrer o caminho de forma pesada e lenta, e até o fim, naquela sensação que mescla anticlímax e o lado torpe da vida humana. Por isso é destas narrativas que certamente podem ser levantadas ao lado do pensamento psicológico de modo que imagino como Freud seria interessante luz na jornada interpretativa do romance. Ademais, ao fim, em seu desfecho, não só o anticlímax está acentuado, mas também o desvelamento de toda uma estrutura social, não raro marcada pela proteção das hipocrisias, ao que o próprio Suguro parece sucumbir em uma aceitação final. Enfim, Escândalo é destes romances para lermos enquanto recolhimento. Sua narrativa deve ser digerida e compreendida em uma vasta cadeia e camadas de nuances que acima de tudo tratam das complexidades e contradições humanas, aspecto no qual o livro é bastante exitoso, pois que soa o tempo todo como uma voz que procura respostas que parecem difíceis de serem encontradas.



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