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Breves comentários sobre crítica literária no Brasil




Na concepção de Afrânio Coutinho a década de 50 é tão importante para a crítica literária porque representa um momento de grande produção e profissionalização da crítica, que abandona o amadorismo e o mero impressionismo para se tornar algo metodológico e de rigor científico. Além disso, a partir dessa discussão, a crítica passa a ser debatida dentro das universidades, bem como estabelece novos paradigmas para os estudos da literatura e das letras no país. A comparação com crítica iniciada em 1870 no advento do romantismo e naturalismo certamente se dá pela representatividade e importância destes dois momentos para a crítica literária, bem como pela rica produção e o surgimento de grandes nomes da crítica literária no Brasil. Desta forma, ambos os momentos representam os principais pontos de estruturação da crítica no país.

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Segundo Afrânio Coutinho, no final da década de 50 havia três vertentes da crítica literária em atuação. Os reacionários e saudosistas adeptos de uma crítica opiniática e impressionista; O Grupo Conservador que se realiza dentro dos ramos tradicionais da biografia crítica e da crítica sociológica e psicológica; E um terceiro grupo no qual próprio Coutinho estava inserido que buscava traçar novos rumos para a crítica literária através de um rigorismo conceitual e metodológica tendo como um dos principais preceitos a obra em si mesma. E ao apresentar isso, Coutinho tece fortes críticas aos dois primeiros grupos, especialmente repudiando a crítica impressionista e amadora, pois dentro dos objetivos do terceiro grupo estava o de justamente propor uma revisão crítica da literatura brasileira profissionalizando-a e, de preferência levando-a para dentro das universidades. Obviamente a posição de Coutinho, crítica às correntes anteriores dá-se também como forma argumentar as novas propostas. Tais posicionamentos ainda hoje estão em debate e não é possível discutir todo o legado e a validade desta nova crítica, no entanto, o mundo moderno com suas novas formas de produção e distribuição literária certamente exigem maiores estudos, e talvez, novas revisões acerca da crítica literária.

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Anteriormente ao rico período da crítica literária de 50, os quatro séculos de crítica literária no Brasil caminharam concomitantemente com a própria formação de uma literatura brasileira. Mesmo num primeiro momento mais rudimentar ainda seguindo preceitos da poética e da retórica, nomes como Januário Cunha e Sotero Reis tiveram destaque. Já durante o romantismo se rompeu com essa tradição, partindo para uma ideia de “nacionalidade literária”, ideia esta defendida por um dos primeiros grandes críticos e autores brasileiros, José de Alencar, cuja defesa era de que a crítica deveria condicionar-se ao meio onde se produzia. Já por volta dos anos 1870 vemos surgir um dos principais momentos da crítica literária no país com a primeira oferta de uma fundamentação teórica para a crítica que relacionava a origem da literatura a três fatores: meio, raça e momento. Esta corrente ficou conhecida como corrente sociológica cujo método consiste na interpretação da Gênese (daí o nome crítica genética) e dentre seus grandes expoentes estava Silvio Romero. Ao lado da corrente sociológica, tínhamos a corrente da crítica biográfica, bastante influenciada por Sainte Beuve. Ainda passamos pela crítica dos herdeiros do neoclassicismo retórico que se notabilizou pelo policiamento gramatical; por fim, ainda antes da década de 50 a crítica praticada pelos jornais de caráter bastante impressionista em que nomes como José Veríssimo e João do Rio se destacam

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A crítica literária feita pelos jornais representa outro momento para a crítica brasileira. Ainda segundo Afrânio Coutinho, este tipo de crítica é feito sem qualquer método e fica a mercê de um impressionismo crítico e assim não pode deixar de receber as influências do espírito superficial e ligeiro do jornalismo. Todavia, a crítica feita nos jornais tem sua relevância para o sistema literário, e a despeito de seu impressionismo, seu papel para com a crítica apresenta determinada relevância, ao mesmo tempo que posteriormente vem sofrer com a profissionalização da crítica e sua ida para o ambiente acadêmico, e, mais atualmente, perde ainda mais relevância com o surgimento de novas tecnologias e plataformas. Se por um lado a crítica acadêmica ainda está forte desde os anos 50 e sem sofrer grande concorrência, por outro, a crítica nos jornais hoje disputa espaço com blogs, sites, canais de vídeo, etc… e não raro suplementos e cadernos literários tem suas redações fechadas, como o caso mais recente do fechamento do caderno Prosa de O Globo.

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A Nova Crítica no Brasil mirou a renovação dos métodos e processos da crítica literária abandonando qualquer espécie de achismo ou impressionismo. Para ela a crítica deveria ser intrínseca ao próprio fato literário emergindo desta forma o estudo do texto. Além disso, a Nova Crítica marca um momento de profissionalização da crítica, e tal trabalho metodológico é realizado com rigor científico. Tais pressupostos acabam levando a crítica para dentro das universidades, bem como estabelecendo o crítico como crítico.

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A divisão crítica ocorrida nos anos 50 ao profissionalizar e estabelecer a crítica dita como “de valor” distinguindo-a da crítica feita nos jornais, muitas vezes tida apenas como recenseamento crítico certamente produz impacto em ambos os casos. Por um lado temos uma crítica mais avalizada e que se utiliza de métodos e do cânone para estabelecer seu trabalho, enquanto a outra crítica, ainda que perdendo espaço e valor, não morre, como se pode pressupor ou imaginar. Tal divisão, obviamente trouxe suas vantagens, entre elas a grande expansão dos estudos literários nas faculdades de letras e a possibilidade de uma crítica mais argumentada através do rigor metodológico. Por outro, não podemos deixar de pensar que tal divisão de certa forma propiciou a elitização da crítica de tal modo de que nada que é feito fora da academia acaba sendo reconhecido, ou obtendo valor.

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Observar o atual momento da crítica literária e da própria literatura no Brasil é uma tarefa que carece de cuidados, bem como, exige bastante cautela diante diferentes posições e argumentos válidos para cada diferente pensamento. Imaginar que a crítica brasileira desapareceu ou está em crise é temerário, porque antes de mais nada é preciso levar em conta todo o cenário da literatura nacional. Os meios de publicação, tanto da crítica quanto da literatura mudam constantemente, e com isso nunca se produziu tanto em toda a história humana. Seja em livros, blogs, telefones, as novas tecnologias fizeram de cada pessoa um potencial autor. Se apenas ficarmos no universo dos livros impressos, a produção é tão gigantesca que por si só demandaria muitas vidas de muitos críticos para dar conta de tanta produtividade. Ainda assim, as publicações extrapolam o papel e não raro vemos o surgimento de produções influentes em diferentes plataformas, como por exemplo, no site Wattpad, uma plataforma em que muitos autores alcançam os milhões de leitores, e posteriormente acabam no formato de livro. Além disso, não raro blogs pessoais ganham relevância e, atualmente, até mesmo a oralidade por meio dos vídeos tem sido transformadas em livros. Tais exemplos servem para demonstrar que acima de tudo, independente se morta ou viva, o cenário que se apresenta à crítica é desafiador, do mesmo modo que nos apresenta um campo vastíssimo para novos estudos. Com isso, prever a morte da crítica ou sua falência é temerário porque o que o atual cenário nos apresenta é uma crítica sendo feita por diferentes pessoas e em diferentes espaços e plataformas. Neste sentido, a crítica tida como “de valor” feita dentro das universidades continua a ser feita e em nenhum momento estacionou, pois a discussão que cabe é tão somente se esta crítica está conseguindo compreender e lidar com este novo momento. Para tanto, é inegável que esta mesma crítica profissional se reformule e se reorganize partindo de um pressuposto de que a elitização desta crítica possa representar um esvaziamento de sua relevância. Além disso, talvez a abertura das universidades brasileiras e a democratização do ensino superior ocorrida nos últimos anos possa representar logo lá na frente uma revisão deste papel. Além da crítica valorizada, o atual cenário apresenta uma diversidade de plataformas em que se possibilitam novos olhares e um novo comportamento da visão crítica. Se por um lado a crítica feita em jornais perde espaço, em blogs, canais de vídeo e outras plataformas vemos proliferar pessoas comentando e discutindo literatura. Obviamente a crítica realizada na internet carece em muitos casos do embasamento teórico e das ferramentas as quais os críticos acadêmicos possuem, no entanto, já não podem mais ser ignoradas, ou pelo menos, não receber certa atenção. Portanto, é necessário aprofundar tal discussão para além desta pergunta, porque não vejo a morte da crítica, mas sim os desafios que se impõe num mundo cada vez mais incompreensível em que esta crítica precisará encontrar o seu espaço e tentar compreender-se dentro de uma literatura tão dinâmica quanto este novo mundo. Quanto ao crítico e os diferentes tipos de crítica também pactuarei com Bazin sobre o que deveremos esperar de um crítico, “que ele deve ser honesto, inteligente e culto. O que de mais ou de menos se pode pedir dele?”. Estando ele na academia, no jornal, na internet ou no seu celular.

*Texto produzido em 2015 para a disciplina de crítica literária

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