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Quem És Tu Que Tanto Ouve E Pouco Fala? O Narratário Em Grande Sertão Veredas.


Nonada. Mistério que se há, descobrir carece. Publicado em 1956 e desde então elevado à condição de um dos maiores romances da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas carrega a aura de ser leitura difícil e de possuir ainda tantos mistérios que não se esgotam nossas possibilidades de visitações e leituras desta obra basilar. A pois; neste tergiversar errôneo, cientes disto tudo, nos dediquemos então a uma presença no romance tão relevante à narrativa quanto o próprio Riobaldo, ou Diadorim. “O Senhor”. Para isso, contudo, antesmente duma discussão e apresentação desta personagem, prima-se pela compreensão de sua existência e “função” na estrutura da específica obra literária. Percebamos imediatamente de que o romance inicia-se num diálogo, algo bastante marcado pelo travessão no principiar do desfiar da estória a ser narrada, portanto, permeada pelo processo dialógico trabalhado por Mikail Bahktin, que dentre outras coisas diz:

que um enunciado é sulcado pela ressonância longínqua e quase inaudível da alternância dos sujeitos, falantes e pelos matizes dialógicos, pelas fronteiras extremamente tênues entre os enunciados e totalmente permeáveis à expressividade do autor. O enunciado é um fenômeno complexo, polimorfo, desde que o analisemos não mais isoladamente, mas em sua relação com o autor (o locutor) e enquanto elo na cadeia da comunicação verbal. (BAHKTIN, 1997, p.318).

Estabelecida a compreensão do complexo processo dialógico então presente, temos de partir também para a compreensão do que é, e posteriormente quem é o narratário de Grande Sertão: Veredas. No adentrar desta discussão, aproveitemos a provocação de Jonathan Culler quando pergunta “quem fala para quem?” e que posteriormente apresenta sua proposição:

O autor cria um texto que é lido pelos leitores. Os leitores inferem a partir do texto um narrador, uma voz que fala. O narrador se dirige a ouvintes que às vezes são subentendidos ou construídos, às vezes explicitamente identificados (particularmente nas histórias dentro de histórias, onde um personagem se torna o narrador e conta a história encaixada para outros personagens). O público do narrador é muitas vezes chamado de narratário. (CULLER, 1999, p.88).

Conforme o autor, lembremos ainda de que o narratário pode ou não estar explícito na obra. Aliás, sobre o narratário, convém observarmos também as discussões de Gérard Genette acerca deste, podendo ser intra ou extradiegético, como explica Soares:

Destacam-se do elenco de personagens de um romance o narrador e o narratário. Lembremos que o primeiro não pode nunca ser confundido com o Autor; é já uma criação deste e, portanto, elemento de ficção. Trata-se o segundo do receptor da narrativa, aquele a quem, muitas vezes, se dirige o narrador (...) De acordo com a proposta de Gérard Genette, quando o narratário não é identificado na narrativa, podemos denominá-lo como narratário extradiegético. É como ele se configura em Vidas Secas, não sendo sequer referido, mas deduzido da voz do narrador (...) Quando o narratário participa da narrativa como personagem concreta (interveniente na trama ou apenas narratário), podemos denominá-lo como narratário intradiegético. (SOARES, 2007, p.45-6).

Para o caso destas reflexões, embora de menor relevância os fatores de classificações, partimos da compreensão de que o narratário de Grande Sertão: Veredas é intradiegético como mera constatação de que assim trata-se de uma personagem da narrativa, afinal, embora sem nome, mas respeitosamente – e com certas formalidades – tratado geralmente por “senhor”, para justamente buscar compreender e conhecer melhor esta personagem a dialogar com Riobaldo. Todavia, desnecessário lembrar que o romance é amplamente discutido por sua relação com a oralidade, e a partir disso, aliás, a opção estética deste narratário é carregada de sentidos, como propõe Valda Suely da Silva Verri discutindo a relação da obra Guimarães com a oralidade:

Ligia Chiappini (1998), ao analisar as funções do narrador Riobaldo em Grande Sertão: veredas,mostra que, para além de sua função primeira que é o ato de narrar, há o objetivo de dirigir seu discurso a um narratário: trata-se de um interlocutor urbano. Esse recurso de Rosa deixa transparecer que as histórias do sertão, relatos orais próprios do mundo incivilizado, passam a relato escrito, característico do universo urbano. Assim, o narratário de Grande Sertão: veredas adquire real importância dentro da situação narrativa, bem como do todo da obra, o que se pode notar numa leitura mais profunda do texto. (VERRI, 2006, p.3-4).

Tendo em vista e levando consideração tais elementos formais e estruturantes da narrativa, partimos, então, a debater e refletir sobre esta personagem e narratário intradiegético de Grande Sertão: Veredas, que de imediato é posto em cena, ou seja, é colocado como presença interna à narrativa a partir do diálogo iniciado pelo narrador, Riobaldo:

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade (...) O senhor ri certas risadas... (...) quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. (ROSA, 1985, p.7).

Aliás, a respeito desta opção de Guimarães Rosa por iniciar sua narrativa a partir do diálogo, de certa forma apresenta alternativa ao paradoxo apresentado por Theodor Adorno ao discutir a posição do narrador no romance contemporâneo, “ela se caracteriza, hoje, por um paradoxo: não se pode mais narrar, embora a forma do romance exija a narração” (ADORNO, 2003, p.55). A solução encontrada por Guimarães Rosa se dá então pela construção de um diálogo, e com isso coloca as duas personagens compartilhando um mesmo espaço, tanto que a percepção que se cria é a da imagem de dois homens sentado à sala de uma casa no sertão, em que um tranquiliza o outro dos sons que vem de fora. Isso, de início já nos apresenta algumas possíveis indicações. Uma de que embora conhecidos, há certa formalidade ou então respeito de parte de um para com o outro, bastante marcada pela forma de tratar o narratário, sempre pelo pronome de tratamento, o senhor. Do mesmo modo, tal escolha poderia indicar um interlocutor mais velho, ou de posição social mais elevada que Riobaldo. Conhecer mais, então, sobre esta figura que postra-se a ouvir o desfiar de estórias do narrador Riobaldo é do interesse neste trabalho; para isso, há ao longo do próprio romance uma boa quantidade de pistas que permitem traçar “o perfil” deste senhor. Todavia, no devir narrativo de Riobaldo temos também de considerar sua tática que encontra ecos no principal documento histórico do Brasil:

Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer. (CAMINHA, 1500, disponível em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf )

Assim como o escrivão da frota do rei demonstra falsa modéstia ao iniciar sua famosa carta, principal documento sobre as crônicas do “descobrimento”, Riobaldo parte pelo mesmo caminho: "Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura, e suma doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei..." (ROSA, 1985, p.13). A falsa modéstia vai sendo posteriormente desnudada pelo próprio narrar de Riobaldo, jagunço, mas também homem dos letramentos, que no sertão, inclusive será conhecido como “professor”. Entrementes, como não se trata de Riobaldo estas errâncias reflexivas, o trecho citado nos apresenta relevantes pistas sobre este narratário, um homem, portanto, de altos estudos e conhecimento, mas também um homem religioso, “sei que é bem estabelecido, que graça nos Santos-Evangelhos” (ROSA, 1985, p.9). Esse é um fato relevante, pois tal característica do narratário, em muitos momentos dá vazão aos questionamentos permanentes de Riobaldo acerca de seu possível pacto com o diabo. Com isso, o narratário – e interlocutor – muitas vezes surge como um caminho de busca para as dúvidas que tanto incomodam ao narrador, de modo que o senhor é quase que um “ombro amigo” a quem Riobaldo “procura”, não só pelo seu grau de conhecimento, mas também por sua experiência “arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor deverá ter conhecido diversos, homens, mulheres...” (ROSA, 1985, p.9). Vejamos que a despeito das dificuldades de leitura, suas primeiras páginas já nos deixam pistas relevantes acerca de suas personagens e do devir da estória. Se as primeiras linhas nos colocam narrador e narratário compartilhando um mesmo espaço e numa situação de diálogo, este desfiar pelo narrador nos permite conhecer algo sobre eles, inclusive sobre o narratário e sua proximidade a estórias estranhas, um contraponto, inclusive à sua posição de interlocutor urbano, dito por Verri. Além disso, testemunhamos ainda um processo interativo entre narrador e narratário:

Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores (...) Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido (...) Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. (ROSA, 1985, p.8).

Entrementes, se Guimarães nos entrega pequenas pistas, do mesmo modo não deixa de atirar-nos em labirintos, pois se a expressão senhor, bem como suas altas experiências evocam certa idade, tal possibilidade de que o interlocutor seja também o tal moço, tal relação, então, seria ancorada em hierarquias sociais que levariam a Riobaldo tratar com tanta formalidade seu companheiro de prosa, nesse caso, talvez alguém mais jovem que o narrador. Mas pensemos nisso adelante, porquanto, vale reforçar que o exposto até aqui rechaça qualquer e mera possibilidade da narrativa de Riobaldo tratar-se dum monólogo, visto que o caráter dialógico está bem definido à situação, e como o próprio excerto anterior demonstra, não está o narratário imune ao narrar, de modo que ele reage às “provocações” de Riobaldo. Aliás, a falsa modéstia do narrador não demora muito a se quebrada, e ainda que ele procure por respostas para suas dúvidas, anseios e questionamentos dialogando com seu narratário, ele, contudo, não se priva de apresentar suas próprias conclusões e explicações, invertendo de certa forma sua relação com o narratário, sobre quem de fato deteria o conhecimento e o saber:

Explico ao senhor! o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem ― ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! ― é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco ― é alta mercê que me faz! e pedir posso, encarecido. (ROSA, 1985, p.10).

Ao mesmo tempo, embora com suas convicções, todavia banhadas nas incertezas, Riobaldo tem no narratário, mais do que o diálogo, também certa busca pela racionalidade e pela afirmação de seu próprio pensamento: "Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela ― já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum." (ROSA, 1985, p.10). Notemos que para além do reforço quanto à instrução do narratário, neste trecho ele responde ao narrador, que embora não explícita, está aparente no processo de diálogo. Por conseguinte, há sempre por parte de Riobaldo demonstrado respeito ao narratário, mesmo quando ele quebra sua falsa modéstia, de modo que está sempre a colocar seu interlocutor presente no diálogo concedendo-lhe relativa “superioridade” intelectual:

O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre ― o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção ― proclamar por uma vez, artes assembleias, que não tem diabo nenhum, não existe. (ROSA, 1985, p.14).

Por conseguinte, no prosseguimento do diálogo, temos além da visão de Riobaldo acerca das religiões, uma importante revelação sobre seu interlocutor:

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico! todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião! para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da- alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... (ROSA, 1985, p.15).

Aqui, portanto, podemos então avançar quanto a questão de idade do narratário, num dos parcos momentos em que ele é denominado por outra forma que não senhor. Além de alguém estudado e estrangeiro ao sertão, temos então possivelmente uma pessoa mais jovem que Riobaldo, pois há de se convir que dificilmente o narrador chamaria um interlocutor mais velho por “seu moço”, tratamento que ele repetirá na narrativa, ainda que em poucas oportunidades. Nesse sentido, a predominância pelo uso de senhor, poderia indicar não só humildade e respeito do narrador perante o narratário, mas também as conveniências necessárias às relações sociais envolvidas neste diálogo, visto que, tudo aponta então para duas personagens de distintos espaços sociais. Chegado até aqui, observemos ainda outras características do interlocutor de Riobaldo:

(...) o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar (...) soubesse o senhor o que é que se preza, em rifleio e à faca (...) O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho (...) E as ideias instruídas do senhor me fornecem paz. Principalmente a confirmação, que me deu, de que o Tal não existe (...) Refiro ao senhor! um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí (...) Ah, o senhor conheceu ele? 0 titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor frasêia? Wusp? E. Seo Emílio Wuspes... Wúpsis... Vupses (...) Zé Bebelo ― ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza dá, raro de vez em quando (...) O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. (...) O senhor é bondoso de me ouvir (...) o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda (...) o senhor é pessoa feliz, vou me rir... (...) O senhor pode rir! seu riso tem siso. Eu sei. Eu quero é que o senhor repense as minhas tolas palavras (...) Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. E ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, quase. Não sei contar direito (...) Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias (...) O senhor mal conhece esta gente sertaneja (...) o senhor veja, o senhor escreva. As grandes coisas, antes de acontecerem. Agora, o mundo quer ficar sem sertão. (ROSA, 1985, p.568).

Os trechos recortados auxiliam-nos a ampliar nossas perspectivas a respeito do narratário, ficando claro a esta altura, então tratar-se de alguém estrangeiro ao sertão, mas que por ali viaja, e dele trata conhecimento, como é o fato de já conhecer o Wuspes. Ademais, o respeito – e inveja – de Riobaldo, já um senhor de idade avançada a desfiar reminiscências à instrução do moço que se dedica a ouvi-lo. Há ainda um elemento que levanta uma tese possível de não passividade à narrativa por parte do ouvinte, que talvez não apenas escute as estórias de Riobaldo, “o senhor veja, o senhor escreva”, de modo que coloca o narratário como também um “coletor” de estórias do sertão. Aliás, do narratário, as intenções de querer conhecer e desbravar o sertão parecem ficar mais claras aqui: "Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. Agora ― digo por mim ― o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada" (ROSA, 1985, p. 24). Vejamos que aqui apresentadas, as “intenções” do narratário de Grande Sertão: Veredas dentro da narrativa aproximam-se da própria experiência de Guimarães Rosa, que em 1952 viajou pelos sertões das gerais. Os registros dessa viagem foram feitos em notas de viagem que o próprio Rosa nomeou como “A Boiada”. Sobre suas viagens pelo Sertão o autor declarou:

O senhor conhece os meus cadernos, não conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por minhas Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O Caderno fica impregnado de sangue de boi, de suor de cavalo, folha machucada (...) não quero palavra, mas coisa, movimento, voo. (Em entrevista a Pedro Bloch, Revista Manchete, em junho de 1963).

Teria Rosa, conhecido por criar e estabelecer jogos dentro da narrativa, diferente do que geralmente acontece, da aproximação de autor ao narrador, se aproximado do narratário? Uma pergunta interessante, que pelo exposto, talvez encontre possibilidades. Todavia, antes de prosseguirmos com nossas conclusões desconclusas, neste trabalho, se convida a observação doutro elemento interessante da relação estabelecida entre narrador e narratário:

(...) De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos; servia para que? Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí, então, careço de que o senhor escute bem essas passagens! da vida de Riobaldo, o jagunço. Narrei miúdo, desse dia, dessa noite, que dela nunca posso achar o esquecimento. O jagunço Riobaldo. Fui eu? Fui e não fui (...) por paga! O senhor entende, o que conto assim é resumo; pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia! um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação. Mas eu achei, aí, a possibilidade capaz, a razão. A razão maior, era uma. O senhor não quer, o senhor não está querendo saber? (...) Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim esperando (...) Sobre assim, aí corria no meio dos nossos um conchavo de animação, fato que ao senhor retardei! devido que mesmo um contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de uma vez (...) O senhor já que me ouviu até aqui, vá ouvindo. Porque está chegando hora de eu ter que lhe contar as coisas muito estranhas. (ROSA, 1985, 568p).

Além da perceptível relação com a oralidade, podemos notar também que o narrador, como Scheherazade fiando estórias para entreter o Rei Shariar, Riobaldo instiga a curiosidade do narratário, ao mesmo tempo que reflete dobre o fragmentado narrar da tradição oral saltando entre estórias, mas sem deixar perder o todo que lhe incomoda. Aliás, como revela Riobaldo “quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho”, a presença do narratário, dentre outras questões que trataremos aqui, surge como a figura dum conselheiro que pela instrução e conhecimento pudesse trazer-lhe explicações para tudo aquilo que ele não consegue compreender. Pelo menos, não pela racionalidade. Nesse sentido, ainda que já tenhamos demonstrado aqui que o narratário não é passivo, aliás, inicialmente talvez não ouviria a toda a estória de Riobaldo:

Eh, que já se vai? Jajá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não. Não consinto. O senhor me desculpe, mas em empenho de minha amizade aceite: o senhor fica. Depois, quinta de-manhã-cedo, o senhor querendo ir, então vai, mesmo me deixa sentindo a sua falta. Mas, hoje ou amanhã, não. Visita, aqui em casa, comigo, é por três dias! (ROSA, 1985, p.24).

Temos por aí indicações importantes. Uma é a de um possível tempo (cujo mítico número três, inclusive poderia abrir outras discussões) por qual parece ter perdurado do diálogo entre o narrador e narratário, e uma confirmação, de que o narratário, embora não passivo, está sempre sob os desígnios da ação da personagem de Riobaldo. Nisso vale observar os principais tipos de interação realizada pelo narrador ao explicitar a presença do narratário. Uma delas é quando daquilo que chamamos aqui de falsa modéstia, aparecendo na narrativa geralmente pelo “o senhor sabe”. Isso na verdade é a porta de entrada para que o narrador Riobaldo produza justamente a inversão entre ele, o jagunço do sertão, não tão letrado e o sumo doutor, interlocutor seu. Via de regra, quando Riobaldo fala “o senhor sabe”, temos o oposto, porque no caso do narratário, ele não sabe, ali a intelectualidade e as altas instruções são solapadas pela experiência do próprio Riobaldo. Nessas interações, percebemos então, talvez, uma reflexão acerca da teoria e da experiência concreta, de modo que o jagunço vira doutor e o doutor, torna-se uma ouvinte do homem sertanejo, de vivência errante, e que no caso de Riobaldo, tenta encontrar na racionalidade da instrução acadêmica, respostas para aquilo que suas experiências mantêm nubladas. Interação ainda mais presente, então, se dá justamente nos questionamentos do narrador sobre aquilo que ele não encontra respostas, pelo menos não, de forma racional às estranhas e humanas experiências da transcendência entre o fato e os mistérios do devir existencial. Tais questionamentos, geralmente concentram-se nas experiências “sobrenaturais” de Riobaldo, seus anseios amorosos, ou mesmo sobre o sertão:

O senhor nonada conhece de mim; sabe o muito ou o pouco? O Urucuia é azigo... Vida vencida de um, caminhos todos para trás, é história que instrui a vida do senhor, algum? O senhor enche uma caderneta... O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do céu. Eu sei. (ROSA, 1985, p.556-7).

Aqui, aliás, temos um tensionamento da relação narrador-narratário. De certo modo estabelece-se um conflito entre a instrução e o conhecimento do ouvinte posta em comparação à experiência do narrador. Ademais, confirma também o processo de registro que realiza o narratário em sua caderneta. O narratário, é bem verdade, ao longo do narrar marcado pela oralidade vê sempre a alteridade do saber entre ele e o narrador, pois uma outra característica das mais presentes do explicitar do narratário está nas diversas e muitas definições de Sertão que Riobaldo falará:

(...) Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torrar dez, quinze léguas sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade (...) Senhor vê, senhor sabe.Sertão é o penal, o criminal. Sertão é onde o homem tem que ter a dura nuca e a mão quadrada. (ROSA, 1985, p.7-102).

Por fim, trazidos aqui diversos elementos relativos ao narratário de Grande: Sertão Veredas, o moço, que na maioria de vezes é tratado por seu interlocutor, Riobaldo pela respeitosa e forma forma de tratamento “o senhor”, podemos notar que este desempenha funções para além da possível idealização de um leitor esperado. Sua presença surge também como um contraponto, alguém em quem Riobaldo tentará afirmar aquilo a que não encontrou respostas racionais. Ademais, a constituição de um narratário culto, doutorado dos conhecimentos altercará e sucumbirá à própria experiência concreta do existir, sempre envolto de tantos segredos e mistérios, que no narrador Riobaldo encontrará não mais do que panaceias ao que lhe perturba; o inexplicável. O contraste entre o narratário urbano e o homem sertanejo se revelará ao leitor agudo uma clara escolha que minimiza o teórico e agiganta a experiência concreta do homem. Nos carregará por caminhos que ao final proporão muitas novas perguntas, afinal, quem é de fato o sábio? O sumo doutor? O sertanejo calejado pelo existir, ou o estudado moço que registra esse saber concreto e então dá-lhe existência? Tirante, não exageraríamos ainda, quiçá, ver no próprio narratário o alter ego de um Guimarães Rosa, que assim como o tal moço peregrinou pelo sertão, reconhecendo e dando vida à riqueza da experiência do existir duro dos grotões que criam um sertão muito além do espaço físico. Estão aqui, todavia, provocações e reflexões bastante iniciais, e que buscam de alguma forma prestar maior atenção nesta personagem silenciosa, mas tão importante para o romance: o narratário, o moço, o senhor, o sensato homem que ouve, um Shariar que talvez registre o sertão de Riobaldo em notas como “A Boiada”. Além disso, ao fim deste ouvir, ora reagindo por possíveis gestos, ora permitindo ao narrador relatar seu próprio discurso, o último parágrafo, não traz apenas a transcendência do homem que ao falar e ser ouvido com atenção alcança esse aspecto, mas que marca também a relação íntima construída entre narrador e narratário ao longo de seus dias de conversa:

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco ― que de tão grande se comparece ― parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia. (ROSA, 1985, p.568)

Nodada? Talvez seja. Mais que um narratário, o ouvinte, aqui, é ainda uma ponte, um barco, um auxiliar relevante na travessia, não só de Riobaldo, mas também do próprio Guimarães.

Referências Bibliográficas 
ADORNO, Theodor. Posição do narrador no romance contemporâneo In: Notas de Literatura I. Editora 34: São Paulo, 2003. 55-63pp. 
BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Martins Fontes: São Paulo, 1997. 418p. BLOCK, Pedro. Entrevista. Revista Manchete em 15 de junho de 1963. 
CULLER, Jonathan. Teoria Literária. Uma Introdução. Beca Prod. Culturais: São Paulo, 1999. 140p. 
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Nova Cultural: São Paulo, 1985. 568p. 
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. Ática: São Paulo, 2007. 85p. 
VERRI, V. S. S. Guimarães Rosa e Uma Visao Sobre a Oralidade. In Revista Boitatá v.1 n.2: Londrina, 2006.

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