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A morte de Deus e o terraplanista



Deus está morto. O pós-modernismo o sepultou. Todos fingem não saber, mas no fundo choram pela contatação. Um choro que causa dores e traumas, não se quer acreditar. Nega-se o sabido, por isso como comum em afogamentos, na tentativa de salvarem-se, mergulham mais e mais a cada braçada. Ao fundo. São-somos pássaros que presos em ambiente estranho não encontram as grandes saídas e insistem em voar apenas numa direção. Por estar morto, agora todos procuram Deus, iludem-se encontrar, mas no fundo, no íntimo, todos sabem a resposta. Deus está morto e sua morte traz talvez a real crise destes tempos. A crise da fé. Da confiança. O perigo sempre foi dar-se à fé apenas o conceito religioso. Perigo porque a vida em sociedade é uma exigência e prática diária de fé.

Toda vez que você entra num ônibus, está praticando sua fé. Fé na mecânica, fé no profissional que guiará você e outras dezenas de vidas por tortuosos caminhos. Fé que ninguém dos que compartilha a viagem fará uma bobagem. Fé é acima de tudo confiança. Um salto de fé é mais do que a crença religiosa ou Neo compreendendo a Matrix. Um salto de fé é levantar-se cedo, sair de casa. Você exerce a confiança todos os dias, ao confiar arrisca mesmo o que lhe seja mais caro. Toda mãe ao deixar um filho na porta da escola está exercendo sua fé, sua confiança. Ali ficará bem. Você confia, você tem fé mais vezes do que pode imaginar num único dia. Você confia em estranhos quando jura amores, quando convida-lhe para sua casa. Você cada vez que tensiona ou aciona a justiça, no fundo está exercendo sua fé. Veja que nesse caso uma fé no mais restrito sentido da palavra. A despeito das contradições, das corrupções no sistema, de tudo que você sabe dele, ainda assim, se prejudicado, você ainda confiará na justiça. Quem sabe dessa vez se faça. Não importa se votou certo ou errado, se usou mais da razão ou da emoção, a cada eleição a seu modo, no fundo você confia que está fazendo seu melhor. Até quando o faz como protesto, você age pela confiança. Jogar uma "pelada" como amigos exige fé, você nem cogita cair e fraturar o crânio. Não projeta algum inimigo dentre vós, mesmo que seja um jogo cheio de estranhos. Você tem fé toda vez que senta num veículo e pega o volante. Tem ainda mais fé quando é apenas caroneiro. O que dizer então daqueles que adentram um monstruoso avião. Não importa se ateu ou se com o crucifixo na mão, ali você faz mais um exercício de fé. Você tem acima de tudo fé na ciência, fé no intelecto humano. Sim, religioso ou não, entrar num avião significa confiar na física, nos engenheiros, nos intelectuais, em toda essa gente humana que faz um trambolho de metal daqueles voar nos céus. Não minta, sem a física você seria incapaz de explicar por que um avião voa. Você tem fé na física, no empuxo, na sustentação, na gravidade. Ao entrar num avião, você tem fé na ciência, repito.

Em um único dia você exercita sua fé muitas vezes ao dia. Talvez só não tenha reparado. Por não reparar, quem sabe, e por tantas outras coisas, a fé, a confiança cada vez mais é uma névoa incerta. A morte de Deus, o pós-modernismo, a tecnologia, nós mesmos, não são poucos os fatores que têm abalado fortemente nossa confiança. Nossa fé. 

Deus está morto. Por pensarem que a fé era seu monopólio, a confiança também agoniza. Não que não tenhamos motivos ou razões, mas saltamos das desconfianças críticas para as paranoias mais fantásticas ou absurdas. O homem já não acredita em nada, quem sabe, porque naquilo que acreditou durante séculos, nunca tenha lhe aparecido. O homem não acredita no homem. Não acredita na ciência, nos professores, nem mesmo em Deus. Não me fale de igrejas e seus pastores capitalistas, pensas quem alguém que confia de fato em Deus, num último julgamento, produziria pastiches televisivos usando na ingenuidade e ignorância de gente simples? Não, os homens não acreditam mais no que falam, não acreditam em seus políticos, não acreditam em mais nada. Tudo é um plano, uma conspiração, um mistério que capenga. O terraplanista Michael Hughes, morto com seu próprio foguete, empenhando em provar que a terra é quadrada é exemplo sintomático destes tempos de agonia da fé, novamente, aqui a fé em seu sentido mais amplo, para além do religioso. "Mad Mike", como tantos outros, já não confiava em nada mais que seus olhos, que em seus parcos conhecimentos aeroespaciais. O sistema mente, a Nasa é uma fraude, o governo, quem sabe um complô reptiliano. No fundo, ele, todos eles, gente desesperada, sem a âncora que os firmou por algum tempo neste mundo caótico com alguma segurança, ainda que ilusória. Ao desconhecerem todos os sentidos da palavra fé, confiança, convicção, não sabem que as exercitamos a cada hora. Viver em sociedade é ter fé constante, menos num Deus, mais fé na própria humanidade. Procurando por aquele que nunca apareceu, parece que nos tornamos incapazes de perceber/compreender aqueles que sempre estiveram aqui, nós, a humanidade.    

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