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Desvendando os mistérios de, O Poço [?]



O ponto de interrogação aprisionado é uma forma de fugir das pretensões de trazer qualquer afirmação às perguntas que têm mobilizado os espectadores do filme O Poço (2019). Contudo, nestas breves digressões, a ideia é a de justamente refletir sobre algumas das discussões que a obra tem suscitado entre espectadores e críticos. Sobre os críticos, vale dizer, em grande parte falam das fragilidades da obra, mas alertam sobre o contexto do agora, pois que as tensões deste presente global incerto acabam valorizando algumas das discussões do angustiante filme. Quanto ao público em geral, em grande parte tem se voltado à obra e às possíveis críticas sociais presentes na obra. Mas disso, logo falamos.

O Poço é um filme antes de mais nada, misterioso, violento, humanamente macabro e visualmente claustrofóbico. Não erraria, ainda, quem evocasse lembranças de um Lost no que se refere aos mistérios. Aliás, as semelhanças, quem sabe, possam ser maiores do que se pensa inicialmente. No filme, Goreng acorda numa claustrofóbica cela em que também habita um velhinho um tanto sinistro, Trimagasi. A cela integra um colossal edifício vertical com tantos níveis que lhes são desconhecidos. No meio destas celas, de geometrias exatas, um fosso retangular por qual desce uma plataforma retangular com os alimentos que deveriam abastecer a todos os níveis. Sobre a preparação da comida os leitores terão apenas flashes um tanto etéreos desta cozinha muito rígida. Como tudo no filme, não se procura explicar a origem ou o que é a cozinha. Mas é dela, deste nível zero, que partem pela plataforma os pratos. Pratos elegantes e caros, vejamos. Sobre a plataforma também é bom analisar seu inexplicável funcionamento. Há quem classifique a produção como ficção científica, contudo, parece-me a plataforma pender mais à fantasia. Se dentre as possibilidades interpretativas a minha tiver algum êxito, então, o caráter "mágico" da plataforma se tornará ainda mais definido. Mas voltemos à prisão, ao poço, a Goreng.

Logo Goreng perceberá o funcionamento do lugar. A plataforma desce com os alimentos restantes dos níveis superiores. O resultado é sempre para lá de nojento, sobras pisoteadas, o alimento bestializado e corrompido pela insensatez dos habitantes dos níveis superiores. O caráter distópico da narrativa se acentuará quando o reticente Goreng, que tenta permanecer alheio à comida nos primeiros dias, como um Winston Smith que compreende a incapacidade de ficar alheio aos dois minutos de ódio, começa a se alimentar da forma lunática que se dá a alimentação naquele estranho e mórbido lugar. No avanço da narrativa Goreng cederá em tudo aquilo que pensava lhe tornar humano e, como comum em níveis inferiores, "comerá para não morrer". Nisso a mensagem última e radical que a última instância da degradação social e humana se é representada pelo canibalismo. Pode-se até pensar exagerada a questão, mas não esqueçamos que dentre os túmulos nunca lembrados nos debates sobre a Segunda Guerra, o canibalismo é um esquecimento conveniente. E dizendo isto, podemos quem sabe entrar naquilo que tem sido muito comentado, seu potencial enquanto crítica social, e diga-se de passagem e por justiça, uma pecha a qual o próprio diretor, tem procurado afastar.

Nesses tempos de militância exigida aliado ao fato de que são tempos de grande pobreza teórica e intelectual, quase tudo passa a ser visto como crítica social. Bacurau, por exemplo, traz uma série de questões problemáticas enquanto filme e com algumas abordagens que no mínimo deveriam ser melhor discutidas. Contudo, em boa parte do público faz sucesso porque esse mesmo público já lhe conferiu o "poder de crítica social". Algo semelhante parece estar havendo com O Poço. Grande parte do público tem o visto positivamente enquanto contundente crítica social. De modo geral seus espectadores compreendem o filme como espécie de metáfora do capitalismo. Esse pode ser um erro de interpretação perigoso. Não se nega que de alguma maneira a obra vai tratar destas questões. Contudo, talvez não com a força e com a intensidade que o público está lhe conferindo. Mas antes de prosseguir nessa crítica à crítica do público, precisamos certamente fazer um "porém". O filme começa a ser visto de forma massiva num dos períodos sombrios de nossa espécie sobre o planeta. Muita gente olha para a película e pensa "daqui há alguns dias estaremos assim?". O isolamento social e as consequências desta pandemia por certo impactam nossas leituras. Nesse sentido, O Poço surge em tempo propício aos medos que evoca. Ainda assim, tê-lo com crítica voraz ao capitalismo talvez não se sustente.

O topo do capitalismo é de uma elegância mortal, bem sabemos. Sem gritos, alardes ou selvagerias à mesa. Mesmo em seus tempos de maior risco, o capitalismo como os lordes que o sustentam enquanto poder, com voz macia e burocracias silenciosas, condenam a todo o resto ao darwinismo social como o de O Poço. Os mais lúcidos e comprometidos eticamente vivem tentando quebrar esta roda, os mais cínicos, agem e lidam com as regras dos lordes, aceitando os limites que o pequeno topo da pirâmide lhe impõe. Em O Poço em nenhum nível veremos a sofisticação do capitalismo. Bem verdade que só teremos acesso ao que ocorre no nível 6, contudo em diferentes flashes, mesmo nos momentos mais nababos da plataforma, a selvageria insensível reflete de algum modo as selvagerias extremas dos níveis inferiores. E não estou dizendo aqui que o topo, que os lordes, que os capitalistas não se atirem à selvageria. Se necessário o fazem, mas protegidos que são, vivem sempre sob a diplomacia do capital e do poder. O topo nunca luta, não se denigre porque está sempre protegido do campo de guerra. 

Assim, fosse uma metáfora do capitalismo, resolveríamos num curta; após a alimentação no primeiro nível, os lordes capitalistas atirariam ao lixo e à incineração o que sobrasse do que comessem com seus talheres de prata ou ouro. Exagero? não é o que ocorre hoje lá fora? Contudo, não se está dizendo que não haja a possibilidade de pensarmos o filme sobre divisão de recursos e riquezas, entretanto, se diz isso, talvez o diga com menos força que o público tem estabelecido. Além disso, embora pela experiência de Goreng ele tenha ascendido até o nível 6 durante sua melhor estadia, no capitalismo, o individuo que estivesse num nível perto do 110, por exemplo, nunca teria uma única experiência no nível 6. Não mesmo. E se tirarmos da obra essa supervalorização enquanto crítica social, talvez aí possamos observar melhor o que o filme realmente é, e mais do que isso, se ilumina um tanto mais os mistérios que têm levado a muito de seus espectadores procurar pelos sentidos de seu final estranho e cheio de lacunas.


E é aqui que compartilho a proposição deste simples espectador. No fundo parece-me que a narrativa é realmente o que é, um filme de um suspense/terror que inclusive se distancia de qualquer ficção científica. Assim como Lost, as nuances tecnológicas escondem as naturezas metafísicas e espirituais que ao cabo são os principais elementos da narrativa. Essa é uma questão difícil de rejeitar quando observamos a natureza messiânica de Goreng, que ao fim, pensará ele próprio ser o portador da palavra. Messianismo e religião dão conta da relação e das ações de Goreng e Baharat. Mas acima de uma narrativa messiânica temos uma narrativa sobre o inferno, sempre ele. Não precisamos trazer exemplos do quão a noção de inferno está presente e se constrói e se ressignifica na arte. São muitas. No terror, então, demônio e inferno andam juntos. 

Nesse sentido, não seria exagerado quem sabe dizer que o filme cria sua própria versão de inferno. Um novo Dante. Um Dante que talvez nos faça pensar na metáfora e na crítica social, mas acima de tudo um Dante, uma narrativa sobre o inferno. Pensar isso certamente tiraria um bocado da relevância que vem sendo dada ao filme. Mas quem sabe seja mesmo só isso, uma narrativa de horror, um horror visual e violento que em certos momentos faz Jogos Mortais quase ser um filme infantil. Um filme de horror banal e simples que acaba ganhando importância não pelo que diz, mas em grande parte por aquilo que o seu público, que a recepção acha que diz filme. Corre-se aí sempre o risco da cegueira, de se procurar por aquilo que nos afirma nossos anseios, medos e convicções. Procurar o que o filme quer dizer no sentido de afirmar algo que já se sabe pode ocasionar que se deixe passar elementos bastante pobres, elementos que, se não estiver errado, corroboram com esta leitura da obra enquanto narrativa sobre o inferno. Nesse aspecto o melhor exemplo é a referência barata ao inferno, à besta. O último nível numerado que temos acesso é justamente o 333. A multiplicação é simples, multiplica-se por dois, e aí temos o famigerado e sempre lembrado em qualquer rock and roll, 666, e como nos lembra Iron Maiden, o número da besta [Curiosamente é o mesmo nível em que está a garota, garota a qual Goreng e Baharat supõe ser a filha da mulher, Miharu]. Essa analogia certamente é imediata a qualquer principiante do horror, e por certo, não deve passar batida. 

Assim, se tomarmos tais referências do inferno como elementos estruturantes de nossa interpretação do filme, muitas outras coisas podem ser trazidas à tona, para uma simplicidade, com todos os riscos da simplicidade. Mas aqui tem-se de dizer, o complexo o é e deve ser complexo, como o são nossas grandes obras. O risco será sempre o de ver complexidade no simples, na mensagem mais barata. Existem, então, elementos um tanto suficientes para que o espectador de O poço veja ou interprete o filme como a história de um homem que vai parar no inferno. Isso sequer é contradito pelos flashbacks de Goreng sobre sua entrada no edifício vertical, mas de uma verticalidade cíclica tal como algumas leituras acerca do inferno. Aliás, se o espectador observar bem, não será difícil imaginar cada um dos personagens que aparecem na tela enquanto condenados a uma punição severa como o inferno. Somamos a isso os efeitos quando da desobediência, o calor ou o frio. Somamos a isso a referência barata ao 666; então já podemos advogar um bocado sobre esta ser uma experiência no inferno. Mais que isso, talvez possa o espectador ver na própria garota a encarnação do demônio, não uma mensagem. Pode ainda a garota e Miharu serem a mesma coisa, distintas no espaço-tempo da verticalidade do poço. Ou poderia ainda, ser o demônio, Trimagasi. O demônio é dado a tentar pretensos portadores da palavra. São muitos os caminhos e as possibilidades de uma interpretação mística e religiosa [vide a crítica ao sacramento cristão de partilhar o corpo de Cristo] do filme. Aliás, o inferno como punição e passagem das almas condenadas pode justificar o final da obra, uma passagem também. Nesse sentido é que penso que o filme trata mais de religião que propriamente critica social. Além disso, é preciso considerar o objeto que Goreng leva para O poço. Dom Quixote. A mensagem de alucinação ou loucura é também, assim como outras referências, mais do que explícita. 

O Poço é no fundo uma obra que acaba sendo supervalorizada muito mais pelo momento que nos chega, do que por suas qualidades ou potencial crítico. É a recepção que tem moldado o filme ao que talvez ele não seja.   

    

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