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Livros, e-books e quarentena




O livro digital no Brasil não deslanchou é uma boa verdade. Muitos dados apontam para a baixa participação dos e-books no mercado editorial. Será um tanto curioso observarmos como o isolamento social e a quarentena impactará nesse processo envolvendo livros digitais e físicos. As editoras e livrarias que já vinham de tempos problemáticos, com a pandemia e seus efeitos só pioraram a questão. Uma amostragem do quão grave é o problema, é uma simples olhada nos dados do site Publishnews, que semanalmente apresenta valores quantitativos de comercialização em sua lista de mais vendidos. Não é que tivemos uma baixa, os dados vieram ao chão, na verdade. Um exemplo: disponibilizei um e-book na Amazon que neste momento que escrevo tinha 129 downloads, e que não o deixa nem entre os dez mais baixados em seu gênero. Este número o incluiria entre os 10 mais vendidos de ficção na lista Publishnews. O exemplo procura demonstrar a concorrência num período diferente para os e-books. Com a pandemia, as principais editoras em auxílio ao convencimento de manter o pessoal em casa, têm disponibilizado boas e importantes obras para leitura digital. Isso tem mudado o próprio perfil de leituras na Amazon. Distribuição de livros gratuitos sempre foi uma tática de autores independentes em busca de leitores. 100 obras baixadas geralmente te deixavam entre os 10 ou 20 mais baixados na categoria geral. Não agora; o que pode estar iniciando alguma mudança nessa queda de braço entre digitais e livros físicos. Entretanto, as respostas virão à frente, mas será interessante acompanharmos se a quarentena incindirá em novas posturas dos leitores frente aos livros digitais. A preferência pelo livro físico sempre foi evocada, e na verdade, a ideia neste texto era justamente a de refletir sobre possíveis impactos futuros, mas acima de tudo, apontar elementos simples que talvez até então nos leve a preferir o livro físico. Caso deste leitor-escrevente.

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Há quem diga que a preferência pelo livro físico se dê por motivos mesquinhos, pelo fato de se poder "possuí-lo", tê-lo como propriedade. Não desconsidero isto, haverão os que os tem por essa razão, entretanto, não sei se estes são bons leitores. Tem quem tenha livro para ostentar a inteligência que não possuiu. Mas, creio, são em menor quantidade que os bons leitores. Em grande parte os leitores o são por alguma paixão que os impelem a ler. Que mais explicaria dedicação a algo tão desprestigiado em nossa nação? Por incrível que pareça, há quem sofra preconceitos por ser leitor. Verdade. No caso de uma sociedade patriarcal como a nossa, ao leitor homem, então, não faltam comentadores da desnecessidade da leitura, e em estratos menos intelectuais, não raro o ato é visto como "uma frescura", aí todos os preconceitos que a expressão demonstra. Assim, a opção pela leitura muitas vezes é também uma escolha ética do leitor. Não todos, bem verdade, porque há quem leia pelas razões erradas e na procura das respostas que nunca serão encontradas. Mas enfim, partindo deste princípio que a leitura nesse país é uma escolha ética do leitor, uma escolha íntima, aí chegamos a uma das prováveis questões que possam nos levar a preferir as obras físicas. O leitor mantém para com os livros uma relação afetiva. Uma relação afetiva que se dá em diferentes contatos, entre o autor e sua obra, entre o leitor e seu livro. Por ser uma relação afetiva, uma relação que demanda contato físico. Abraço, virares de páginas, às vezes só uma ou outra olhadela naquele trecho específico. E não pense que quando falo de questão afetiva, esteja falando de um afeto cheio de ciúmes; embora brincadeiras sobre emprestar ou não os livros, os bons leitores, os leitores afetivos, estes sempre costumam emprestar seus livros. Nisso, os livros meio que acabam mesmo criando vínculos ou redes sociais, às vezes entre familiares, entre amigos, mas enfim, circulam em pequenos núcleos que tornam aquele livro importante ponto de contato comum entre pessoas. Uma conexão. Embora exista tal possibilidade, me parece que não é muito comum esse mesmo partilhar nos livros digitais [excluindo, claro, sites de download]. Por ser uma relação afetiva, não desconsidero, claro, a possibilidade dos problemas de uma relação afetiva. Os sentimentos, possessivos, por exemplo, como trazidos já. Há quem prefira o físico para poder dizer "meu livro", algo impossível quanto ao livro digital. Vejamos, os livros digitais habitam nuvens etéreas mantidas por grandes corporações que simplesmente nos alugam o acesso às obras. São bibliotecas, na verdade. Se prestar atenção, você nunca compra um e-book, aluga-o. Você pode ter disponível, dois, três mil livros em seu aplicativo da Amazon, mas dificilmente dirá que tem mil livros. No fundo, sabe ou desconfia do quão efêmero aquela disponibilidade pode ser. Se a empresa quebra? Se as redes caem? Se temos um colapso energético em que não possamos carregar a bateria dos aparelhos? Os leitores quase sempre são capazes de encontrar um cenário em que os livros físicos estão a disposição e os e-books não. Em parte porque as bibliotecas nas nuvens digitais carregam quem sabe os perigos que a transmissão oral sempre nos trouxe, inclusive antes da escrita. Assim, mesmo quando a relação afetiva, é, digamos, por um sentimento menos nobre, não se deixa de ter alguma razão. De alguma forma temos o livro físico, enquanto o digital nos é ou está disponibilizado em algum servidor cuja única opção nossa é confiar que não tenham problemas.

 Além disso, a prática e experiência pessoal levam-me a outras hipóteses. Há uma diferença enorme entre sentar defronte a sua estante ou biblioteca, olhar as diferentes lombadas enquanto exercita o pensamento em busca do apoio para seus trabalhos, escritas etc... A estante, a biblioteca parece conversar com você, seus olhos perscrutam por todo o espaço, pelos volumes que lhe estão disponíveis. Na tela, eles vêm em pequenos blocos dispersivos, quando você encontra o que quer, já esqueceu de outro que também queria. No mundo físico você observa e abraça o que precisa. Para quem como eu acaba usando suas leituras noutras escrituras como artigos ou posts, então, até o rabiscar nas páginas, o anotar do que lhe chamou atenção, o estabelecimento do diálogo com o livro é diferente. É quente. Mesmo os livros digitais tendo a possibilidade de se sublinhar, anotar, ainda assim, parecem-me ferramentas frias. Desconfio ser justamente isto porque até então temos esnobado os livros digitais, pela quentura e pela relação afetiva que estabelecemos com o livro físico. É uma relação sensorial com o objeto livro, que parece ter encontrado sua melhor forma. Os livros digitais, assim como muita coisa digital parece-me esconder sob a fachada de suas facilidades, certa frieza. Certa distância. Certa efemeridade. Com esta quarentena estamos sendo obrigados a dar uma chance aos e-books. Veremos o que acontecerá mais à frente.     

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