Swift

O componente político em obras de Stephen King


Talvez não esteja me ocorrendo, entretanto, não lembro de autor americano que recentemente tenha marcado por posições políticas tanto quanto Stephen King. O grande mestre do horror, como os fãs os chamam, nos últimos meses, nos últimos anos, tem chamado a atenção por seus posicionamentos políticos, especificamente por sua forte oposição que faz ao governo e as atitudes de Donald Trump, quem, para o autor, consegue ser pior que seus próprios vilões. Há quem se surpreenda com o fato de o autor “ir às devas” com o presidente (quase ex) americano. Em grande parte pelo fato dos diferentes preconceitos que permeiam as obras e a leitura de Stephen King que por ser popular, de massas, muitas vezes é rechaçado pela crítica e pela academia. Um grande erro, pois é provavelmente a maior virtude do autor  justamente a compreensão desse americano médio, mundano, e para tomar um termo das eleições americanas e ascensão de Trump, habitantes de uma América profunda. 

Stephen King não enxerga o mundo pelas cores do idealismo, mas sim por meio de um forte realismo sobre comportamentos e ideologias de um público em grande parte ignorado pela dita “alta literatura”. Também por isso é acachapante o fato de King ver em Trump algo pior que seus vilões. Contudo, não é sobre o embate entre Steve e Trump que se pretende falar aqui. O trago como demonstração de que King, como o são – ou deveriam ser – os escritores, são agentes políticos. Agentes políticos que se expressam com suas próprias vozes, como Stephen King tem feito especialmente através do Twitter. Ou através de suas obras. Pois sim, veremos em muitos trabalhos de Stephen King uma interessante e profícua discussão sobre política. Suas opiniões e sua postura política também podem ser encontradas em sua literatura. 

Em um de seus romances mais recentes publicado no Brasil, O Instituto (2019), a política, a mais nefasta dela, permeia como uma sombra todo o enredo, através das paranoias e desconfianças de seu narrador sobre a possibilidade de todos os horrores perpetrados pela opressora e secreta instituição que aprisiona crianças “talentosas” sequestradas de seus lares ter relação com o governo e a política. “Eles são como Eichmann ou Walter Rauff, o cara que teve a ideia de construir câmaras de gás móveis” diz o narrador relacionando a forte referência histórica ao trabalho realizado pelo Instituto do romance. Não será a primeira vez que os traumas do nazismo surgem em trabalhos de King, de forma que O Instituto acaba reverberando outra obra sua: A Incendiária, de 1980. Aliás, o livro de 2019 bem poderia ser uma sequência da obra dos anos oitenta. Se lá tínhamos uma Oficina, no livro mais recente é como se tal órgão se reproduzisse pelo mundo através dos institutos. Defendo que A Incendiária é bastante interessante para discutirmos a presença de uma crítica política em obras de Steve. 

No romance, uma garota com “poderes especiais”, no caso, a pirocinese, é sequestrada por uma agência governamental conhecida como Oficina. Por meio da ação da Oficina o autor desnuda um Estado longe de um estado democrático quando lhe interessa. A garota é extirpada da família e submetida a experiências torturantes. Para alguns, quem sabe, o enredo poderia ser uma predecessor de um Arquivo X. Contudo, é o próprio King que faz dois avisos relevantes sobre o livro, um, é afastando-o do horror e concebendo a obra mais próxima de uma ficção científica; o outro e mais importante é quando revela num posfácio que “apesar de A incendiária ser um livro, uma história inventada (...) a maioria dos elementos do livro é baseada em acontecimentos reais, sejam eles desagradáveis ou inexplicáveis, ou simplesmente fascinantes”. 

O que ele pretende nos dizer de fato é que a Oficina não se tratava apenas de uma viagem de sua mente criativa, mas sim, fruto das estranhas e bizarras idealizações durante uma Guerra Fria e um Pós-Guerra em pleno solo americano. Instituições criadas pelo Estado, mas à sombra desse mesmo Estado. Diz Stephen King “dentre os [fatos] desagradáveis está o fato inegável de que o governo dos Estados Unidos, ou agências dele, realmente administraram drogas potencialmente perigosas a pessoas alheias a isso, em mais de uma ocasião”. O autor vai além e comenta que “dentre os simplesmente fascinantes, ainda que sinistros, está o fato de que tanto os Estados Unidos quanto a união das Repúblicas Socialistas Soviéticas têm programas que isolam chamados talentos selvagens”. 

Nesse caso, algo um tanto ousado se pensarmos em termos americanos, o escritor põe a América no mesmo balaio que os soviéticos “comunistas”. Temos de convir que não é pouca coisa o que Steve faz nesta comparação. Talvez só menos impactante que o trecho de crítica política mais voraz dentro da própria narrativa. Charlie e o pai estão em fuga dos agentes da Oficina e acabam na fazenda dos Manders. Portador de uma consciência do idealismo democrático americano, Irv Manders será o contraponto e também o elemento contrastante entre o ideal de um estado democrático e o comportamento deste Estado, que às sombras de suas estruturas, move-se tão autoritário quanto seus “inimigos”:

– Vocês estão invadindo propriedade particular – Afirmou [Irv Manders] – Eu quero que vocês saíam da minha propriedade.

– Nós somos homens do governo, senhor...

– Não quero saber se são procuradas por assassinar o presidente (...) me mostre um mandado ou saia da minha propriedade.

– Nós não precisamos de um mandado – Asseverou Al, e sua voz parecia de aço agora.

– Precisam, sim, a não ser que eu tenha acordado na Rússia hoje – Replicou Irv. (KING, 2018, p.134)

No embate entre Irv e os agentes da Oficina um ato de questionamento dos limites do Estado. Os limites da lei. O fazendeiro ainda acredita no sistema, na democracia, tenta usá-la enquanto direito. Contudo, não apaga o fato de que o romance, no todo, trará essa agência aos moldes, de acordo com o fazendeiro, dos russos. E aí, parece-me estar uma forte crítica social e política. Há uma desconfiança de King a respeito das atitudes do Estado. Do poder e do governo. Ao conceber uma agência à luz da democracia, não se deixa de fazer uma espécie de denúncia. E não uma denúncia que se reduz a este ou aquele presidente, mas ao próprio Estado. Por isso é bastante impactante que de um modo ou outro, a narrativa acaba colocando o governo americano na mesma panela que regimes autoritários condenados pela história. Algo que é reforçado quando Irv discute com a esposa sobre sua postura para com os agentes federais “o que você quer que eu faça, Norma? Que eu fique sentado aqui e entregue eles para a polícia secreta (...) Que seja um bom alemão?”. 

Não podemos negar a força presente neste texto. Primeiro porque ele faz referência ao “bom alemão”, aquele insensível aos odores e à fumaça dos campos de concentração. Aquele que fechou os olhos para os horrores do nazismo. De certo modo Irv procura manter o ideal americano de democracia, e a possibilidade de se opor ao poder tirânico dos que deturpam sua democracia. Mas ao fazer isso, Irv além de já ter aproximado o Estado dos russos, agora o equipara aos nazistas. Isso não deixa de ter potencial para ser pancada forte. Uma discussão que King faz já nos anos oitenta e que acaba dialogando sobre as posturas contemporâneas do governo americano, vide a perseguição do Estado a nomes como Edward Snowden e Julian Assange, os escândalos envolvendo a NSA, etc...

A incendiária é, portanto, um bom exemplo de que o olhar crítico de King para com a política também está presente em seus livros. E para retomar a querela entre ele e Trump, bastaria olharmos para aquela que talvez seja sua narrativa mais política no sentido de crítica social, A Zona Morta (1979). No romance, John Smith depois de um acidente de carro passa a ter poderes mentais que lhe dão acesso ao passado, presente e futuro. Basta tocar em uma pessoa para ter acesso a tudo. É por causa desses poderes que ao tocar um projeto de político populista, Greg Stillson, que Smith se verá diante uma decisão difícil enquanto homem que vê o futuro e descobre o quão horrível um homem pode tornar esse futuro. Vale dizer ainda, que, como estamos abordando a política na obra de Stephen King, o romance nasce na cauda do macarthismo, cujos dias “tinham terminado em Washington havia pouco tempo, mas no Meio-Oeste a estrela de Joe McCarthy ainda não se apagara”. Na obra, Stillson é descrito como um grande pária da política, ainda anônimo, um político de cidade com alguns problemas às costas. Um político que talvez não tivesse no radar de sua possível presidência. Uma figura que bem poderia encontrar um ou outro paralelo com a nêmesis contemporânea de King, Donald Trump.

No decorrer da narrativa, os “talentos” paranormais de Jhonny Smith lhe provocam um dos seus “lampejos”. Em um comício ele vê “Greg Stillson como presidente americano”. Diz Smith “se Stillson se tornar presidente, vai agravar a situação internacional”, seu acesso ao futuro fala ainda em guerra e num colapso global. E entra no debate entre matar ou não o tirano antes do tirano empossado; esse passa a ser o dilema de Jhonny, que diz saber o quanto “Stillson” é perigoso. Assim o livro adentra aquelas dúvidas, por exemplo, de o que aconteceria se alguém tivesse acesso ao futuro e visse no que daria a ascensão de Hitler, Stálin ou qualquer outro tirano ao poder. Seria válido matá-lo em nome das vidas que seriam preservadas? Dilema que movimenta a ética do protagonista. Dilema que, por fim, será resolvido num meio termo, que ao cabo, não leva ao radicalismo final, de certo modo poupando Smith de uma culpa máxima.

Para além desse dilema e do risco que tal como um Trump, um Bolsonaro, um Orban, um Putin representam para o mundo, Stillson representa, em A Zona Morta a política em suas piores intenções. Também trata do poder de encantamento das falas populistas e demagógicas, que na literatura americana, além deste romance de King, veremos em um Sinclair Lewis. No caso de A Zona Morta, numa narrativa popular, sobrenatural, e talvez por isso, sem o reconhecimento do poder crítico presente. Por isso, se Stephen King entre os escritores tem se mostrado uma das vozes mais ativas, não é por acaso. Aos leitores de King, essa relação com a política talvez não represente qualquer novidade. Muitos de seus romances trazem este olhar para a política americana. E esse olhar é crítico e questionador. Como um Hamlet, alguns romances e alguns personagens parecem querer dizer “que há algo de podre no reino da Dinamarca”.  A seu modo, Stephen King fala dos desvios na democracia americana. Mostra que por vezes, perigos como o autoritarismo se movimentam às sombras dessa democracia. Em síntese, seja em seus tuítes ou em seus romances, Steve tem sido um questionador. Se você prestar atenção, para além de sua popularidade, de sua capacidade de alcançar as massas, seus romances têm sumos relevantes, desde que não nos percamos no engano de ver suas obras apenas como entretenimento. Stephen King também é um bom crítico das estruturas políticas.

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