Swift

Churrasco de Gato. Salada Vegana.

    

Meu pior pesadelo é o pesadelo do outro. A frase brotou nessas epifanias que surgem nas horas mais incertas e insanas, como palimpsestos soprados ao ar que mesmo desaparecendo tão instantaneamente quanto surgiram, ficam martelando por dias. Foram não mais que quatro, seis segundos que a voz imaginária penetrou à mente do Sargento Saldanha distraindo-o da atividade a que dedicava-se com ardor e certa furtividade.
    É curioso pensar neste homem alquebrado, magérrimo e aos trapos como Sargento Saldanha. É bem verdade, já o fora, num passado remoto, quando a polícia tinha outra linha de trabalho. Tinha outros chefes no comando. Bem verdade que nem melhores e nem piores que os de agora, afinal, polícia era polícia, e se você estiver do lado oposto para quem a polícia trabalha, certamente manterá olhares de esguelho se for alguém prudente. Pois sim, naqueles tempos Saldanha era Sargento, tinha certa fama pelo distrito e seus piparotes nos de chinela eram famosos. “Meter o horror é o mesmo que angariar respeito” dizia entre os parceiros. Naquela época Sargento Saldanha tinha músculos fornidos conquistados com exercícios e churrasco de domingo. Um piparote era um soco.
    Ah, sim. Churrasco. Palavra estranha, em desuso, mas por certo que a lembrança se dá pela tal atividade do Saldanha no exato momento em que a epifania distraiu-o. O Saldanha de hoje, minguado, coitado, feixes de gravetos no colo, até parece que não terá forças para o ato. Aliás, um ato bastante extremista, diga-se.
   Não é muito fácil dizer quando ideias perigosas começam a tomar forma na cabeça, e se perguntássemos ao Saldanha quando foi que ele teve a sua ideia, o mais provável é que se perca em tentativas de respostas. Pobre Saldanha, aliás, se o pegarem, certamente haverá perguntas, quiçá a posição do “porquinho no rolete”. A nova turma é um bocado sádica, e arruma uns nomes horríveis para suas práticas abusivas. Isso só pra deixar claro o quanto destetam torturar alguém.
    Eh! Mas o Saldanha é candidato a ficar pendurado, nu e com uma maçã na boca. Preso à arara de metal. Dizem que o que vem depois é ainda pior.
   Todavia, a mente do Saldanha pode até abrir-se a epifanias desconexas, mas a essa altura de sua loucura decidida, bem capaz que ele fosse adotar a prudência. No seu íntimo,lá dentro onde a mídiaconvencimento e a lei ainda não penetraram, Saldanha é convicto de que não está fazendo nada errado. Pobre Saldanha, esquece-se que a nossa convicção pessoal do certo e do errado dificilmente escapa da convicção de que os outros nos impõe, uns de forma mais simulada, outros pelo peso da força mesmo. Se as memórias do Saldanha, por acaso fossem um pouco mais críticas fariam-no lembrar dos tempos de antes de outra forma; de como ele ocupava o mesmo lugar daqueles que agora ele precisa ficar longe. Se Saldanha não estivesse tão imbuído nas queixas das injustiças daquele novo sistema, talvez pudesse conceber que suas próprias palavras e pensamentos de hoje repetem a daqueles garotos em que distribuía piparotes, quando não uma cacetada e outra. “Tudo marginal”. Ria.
    Seria o Saldanha hoje um marginal? Não que essa pergunta lhe achegasse ao cérebro, corroído pela fome e pela rebeldia reacionária. Saldanha está mais entretido na tentativa de acender o fogo, nunca ia lhe voltar à memória suas palavras repetidas a exaustão “tá preocupado por quê? Quem não deve não teme a polícia”, “gente boa não se esconde”. Mas ali estava o Saldanha após dias de preparação conspiradora. Dias juntando coragem para rebelar-se contra a lei. 
    Nem mesmo aí o Saldanha consegue lembrar-se daquela manifestação. "Soltem o presidente” dizia a maioria das faixas. Mas a que mais tinha incomodado o Saldanha fora aquela “se não respeitam a vontade do povo, a desobediência civil é o caminho”. Bando de arruaceiros, comunistas, bandidos, vândalos, anarquistas, marginais, adjetivos não faltavam na corporação para identificar os marchantes. Naquela noite Saldanha até matou um garoto, o cassetete de metal adentrou o crânio. Foi como porretear uma melancia, tinha pensado o Saldanha, que nunca foi julgado por aquilo. Era só o seu trabalho. A mente do Saldanha, acho, não volta a essas coisas espinhosas, mas ei-lo em sua desobediência civil. “Se me pegarem, dá merda” ele tinha sussurrado por dias. “Foda-se” foi sua bela conclusão.
    Entretanto, mal cuidado pelo novo mundo, Saldanha não iria facilitar as coisas, deixar-se ser descoberto. Até porque, ah, como ele desejava sentir novamente aqueles sabores no seu paladar, mastigar a carne suculenta, deixar as gorduras embrenharem-se por entre as falhas em seus dentes. Há quanto tempo não fazia um churrasco? Não comia carne? Dezoito, vinte anos? 
    Desde a grande mudança Saldanha não vinha contando o tempo com precisão. Mas fazia tempo demais, disso tinha certeza, e quanto mais tempo passava, mais voltava a sonhar com aqueles suculentos encontros dominicais. Sete, oito caras, todos da corporação, cerveja, carnes, e mulheres. Saldanha até lembrou-se dum desses dias, no domingo depois da Marcha dos Sete Mortos como a imprensa passou a chamar. Metade do país chamava-os de heróis, uma outra parte, de assassinos e tiranos. Independentemente disso, naquele domingo o Comandante decidira comemorar. Festa de arromba.
    Saldanha nem mais sabia se eram reais ou não, aqueles tempos.
    Sabia, porém, que tinha de enfrentar aquela proibição absurda. Não se lembrava mais como começou, tinha alguma coisa a ver com os peidos das vacas e dos bois, do sofrimento dos bichos e um outro tanto de blá.
    E um dia lá estava a lei. A Federação Vegana e seus sinuosos parlamentares que de uma hora para hora tomaram o poder. No começo não foi fácil impor as novas e saudáveis regras do mundo. Mas um dia Saldanha descobriu que não era mais da polícia, fora aposentado. Depois viu desaparecer as carnes de mercados e lojas, e quando até mesmo as vacas e os bois sumiram por completo, nem mais o mercado negro era uma salvação. 
    Tudo isso fazia tempo.Saldanha não aguentou.Estava velho, logo morreria. “Só mais uma vez”.
   Ah, o cheiro, que rico cheiro. “Foda-se que é um gato”. Os novos donos do mundo, embora não comessem carne, as tinham como estimação. Por meses Saldanha cobiçou o casal de gatos da vizinha do cento e sete. Planejou tudo. Encontrou o lugar distante,pensou nos feixes e no tamanho do fogo necessário, o suficiente para não atrair a atenção da polícia. Quando tudo se ajeitou e os gatos ficaram à feição...
  Ali estavam. Saldanha e os dois gatinhos espetados. Volta e meia Saldanha girava os espetos. Lembrava-se de que isso dava uniformidade à maturação da carne. Teve que resistir muito quando os primeiros aromas de carne ao fogo subiram no ar. Mas ele não estragaria comendo carne crua. Esperou pelo momento certo. Aquele.
  Tirou um dos espetos do fogo, já bem mais brando. Aspirou com ânsia e fome aquele aroma que transportava-o a lembranças felizes. Tão absorto que não ouviu o crash dos galhos e folhas, tampouco o som sibilante das patrulhas aéreas.
  “Parado aí Cidadão Zero Ponto Oitocentos e Cinco Mil. Você está cometendo um crime federal. Repito, PARE JÁ O QUE ESTÁ FAZENDO!”
  Pobre Saldanha. Despertou para a realidade tão assustado e ofegante quanto despertamos dos pesadelos. Abriu a bocarra expondo seus dentes apodrecidos. Que o matassem, que atirassem a porra de suas armas, mas iria morder aquele suculento churrasco de gato. Levou um pedaço do bicho à boca com a sofreguidão e a pressa dos condenados. Mas antes do Nhac, ouviu-se o clanc.
   Saldanha sentiu primeiro uma estranha dormência iniciando atrás de sua cabeça e se espalhando pelo restante dela. Nessa fração de segundos, uma estranha umidade brotou do ponto de impacto da pancada. A boca cerrou-se com violência, tirando um raspão da desejada carne. E então escureceu novamente.

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