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O romance de antes para ajudar entender a polarização de agora



Certamente umas das frases mais ditas ao final de 2018 e nos primeiros dias deste ano é que este (2018) foi um ano de muita polarização. Isto quando não se usa este fato para um tanto ingenuamente nas melhores hipóteses, e maldosamente nas piores, conclamar para a pacificação nacional. Mais uma de nossas operações borracha. Mas aí já entrego certamente da obra que pretendo falar sucintamente. Incidente em Antares, de Érico Veríssimo.

Não à toa, ou aleatório, que nos estertores do conturbado ano de 2018, a irônica tégue #Feliz1964 estava entre os assuntos mais populares comentados no Twitter. A sensação de retrocesso, de volta no tempo, acompanha grande parte dos brasileiros desde o golpe de 2016 que tirou Dilma Roussef do poder. Desde então, o país sacudido num giro de cento e oitenta graus para trás, vimos ressurgir paranoicas e conspiratórias pautas, como a ameaça comunista, hilária, mas menos obscurantista que os adeptos do terraplanismo. Tudo isso reforçado pelo discurso do agora presidente, que em sua posse declarou "ter livrado o país do socialismo" e em tantas outras oportunidades ter levantado sua caneta Bic contra um plano gigantesco de doutrinação Marxista nas escolas. Num cenário desses, nunca tão "atual" que a obra de Veríssimo, publicada no auge da repressão da ditadura militar. Por isso, talvez, a leitura de Incidente em Antares nos seja importante neste momento. Pelo menos pode nos mostrar o quão tragicômica configura-se o presente momento do Brasil.

Escrito numa época de polarização, a mesma que agora ressurge a partir do esquecimento por muitos, daqueles tempos sombrios, e a oportunidade proporcionada por uma onda reacionária e conservadora de nível global, Incidente em Antares é quase que o reflexo de nosso presente ainda que escrito em nosso passado. Mostra que pelo menos, nós, brasileiros, somos pouco originais até mesmo quando brigamos, pois que a obra do autor gaúcho nos mostra que apenas repetimos nosso passado, embora seja mais tosca esta situação.

Todavia é preciso considerar que a polarização construída a partir de velhos medos, como a tal ameaça comunista, a que acusam neste país qualquer pessoa que pregue justiça social, pois esta reedição retórica tem algum sentido se pensarmos que desde nossa reabertura democrática havia acordo entre os diferentes partidos quanto ao valor da democracia. Embora disputando o poder em grande parte deste período, PT e PSDB mantinham pelo menos até 2014 esse pacto democrático, ambos nascidos das lutas democráticas pós golpe militar. Isso não significa, contudo, que as vozes das viúvas da tirania estivessem eliminadas, apenas silenciosas. Por isso uma observação mais atenta perceberá que a polarização de que se fala, trata-se de um novo embate, de uma reedição daqueles anos que parecem eternos, como 64. Com a democracia fragilizada pela corrupção de seus novos atores, isso foi o que bastou para aquelas antigas forças que pairavam silenciosas à sombra, voltassem com todo o gás. E com isso, 2018 e 2019 que começa nos parecem um remake do passado, ainda que esse seja um processo já embrionado nas jornadas de junho de 2013.


Mas enfim, voltemos ao Incidente. Muitos se lembrarão do fato de ser o livro que fala da greve geral, da greve dos coveiros, e dos mortos que voltam a caminhar pela cidade. Mas para além dos zumbis e do realismo mágico, o livro é de grande intensidade política, pois sua crítica e sua analise social é retumbante. Nele, muitas das discussões - e acusações que hoje se dão em memes - que vimos ao longo dos anos recentes estão reproduzidas. O anticomunismo, a perseguição à intelectualidade, a polarização entre famílias Vacariano e Campolargo, enfim disputas que polarizam, e expressas talvez numa das cenas aparentemente aleatórias de nossa literatura, quando dois caminhões chegam ao coreto da cidade, um da Pepsi e outro da Coca-Cola; Veríssimo até pelo refrigerante nos revela o quão dividida estava a sociedade.


Entretanto se há divisão e polarização social, o autor, por sua vez não é neutro em sua posição. Expressa-se pelos recursos que a literatura lhe permite, especialmente pela carnavalização criada com do discurso de Cícero Branco, que em pleno coreto aponta o dedo para todas as hipocrisias da estrutura social da cidade de Antares, ali representação alegórica de todo o país. A morte e o carnaval ao modo Bahktin permitem-lhe isso. Veríssimo, exímio observador social, após o estranho incidente e as verdades lá ditas, mostra-nos ainda as artimanhas do poder e suas ferramentas para o esquecimento, para o apaziguamento, que no romance dá-se pela Operação Borracha, cuja tarefa é fazer com que todos esqueçam aquele dia. Mas que esqueçam especialmente do que foi dito no coreto de Antares.

Tais elementos, portanto, tornam esta uma leitura muito interessante para os dias de hoje. A polarização que nele salta tem muita relação com os dramas recentes do país, especialmente pela repetição de velhos e ultrapassados discursos que não deveriam mais fazer sentido. Entretanto a vida é assim, não há garantias de que coisas ruins não aconteçam de novo. Por isso é fundamental a literatura, que ao menos nos ajuda a entender um pouco disso tudo, e no caso desse romance, traz não somente a polarização dicotômica da sociedade, mas trata dos nossos (os meus nãos, os deles) pendores autoritários, constituintes de uma nação marcada por seus traumas e tragédias sociais.

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