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Era uma vez no Bananaquistão



Certa vez no Bananaquistão as forças ocultas das elites oligárquicas oprimidas pelo levante popular propiciado pela onda de políticas sociais revoltou-se, encontrando na tática do golpe a única maneira de derrubar a democracia social daquele país tão judiado em seu passado.

Os mais afoitos da República do Bananaquistão queriam ir logo para o pau, descer a lenha e por na rua seus cães estimados, vestidos à camufla, com tanques e rifles às ruas. Mas como até mesmo os tiranos evoluem, algumas vozes mais equilibradas dentre a tríade Terno e Gravata - Farda - Toga desenharam então um astuto golpe para que as forças repressoras e retrógradas pudessem voltar a controlar o Bananaquistão.

Na primeira etapa, claro, era preciso deslegitimar o governo existente, uma tarefa difícil, pois que era aquela uma época auspiciosa. Falava-se em educação, progresso, futuro. Havia emprego, investimentos, e acima de tudo, construía-se as bases para uma igualdade social entre todos. Não seria fácil derrubar aquela gente que há poucas décadas governava o Bananaquistão.

Para isso, à tríade, juntaram-se os dos Microfones, e aí as máquinas foram parando, as indústrias desacelerando e nas telas, "apesar de" só produziam más notícias. Enquanto isso noutra frente, os de Toga criminalizando uns e afagando outros foram pouco a pouco afastando os inimigos, aquela gente da igualdade... Assim, fingindo-se de bastiões da moralidade e detratores de todas as corrupções, os agentes do golpe no Bananaquistão foram disseminando o ódio, a raiva...

Deu certo. Derrubaram o governo, e então deixaram por lá um tampão caricato, coisa vil e traidora, odiado pelos caídos e rechaçado até mesmo entre os golpistas do Bananaquistão. Ainda assim, a gótica figura draconiana foi revelando suas garras, presenteando com maldades os mais pobres e os trabalhadores daquela republiqueta. Mas eis que aquela era só a segunda parte do plano, pois seu lado mais astuto ainda não fora revelado.

Diga o que se dizer do golpismo, mas ele aprendeu com seus enganos passados. Camaleou-se neste novo século, de modo que bem sabia a necessidade de parecer-se correto, de vestir-se de legitimidade. Por isso a terceira etapa era ainda mais ardilosa.

Precisavam de um maníaco, de um desequilibrado, de um sociopata capaz de aproveitar o ódio introjetado nas massas do Bananaquistão. Um homem que fizesse brilhar os olhos dos desesperançados, um homem cujo verniz de santidade durasse tão somente os primeiros meses de sua eleição. 

Pois acharam o crápula, um insano incapaz de compreender as relações humanas, a democracia; dotado de um ego amoral como nunca visto na história do Bananaquistão. E essa coisa venceu, e por certo nem sabia como. Venceu e começou a desgovernar, de tão louco que era. Poucos meses de sua posse e o Bananaquistão parecera entrar num túnel de absurdos que nem os mais viajados autores de sua ficção nacional eram capaz de conceber. O povo, aturdido com o crápula com a faixa, tinha então sido enredado de vez pelo golpe em três atos. Sim, o louco no palácio não fora aleatório, tampouco seu contraste, seu equilibrado substituto imediato. Quem poderia reclamar das forças repressoras, do grande golpe, se o substituto passara a soar a todos como melhor opção do que o maluco pervertido e ressentido.

Foi assim que a República do Bananaquistão caiu de vez no golpe.

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